Imagine-se em Genebra, depois de uma esticada de 12 horas desde a italiana Florença em busca da bem-amada. Ponha-se de mãos dadas com ela em passeio por um bairro tranquilo da cidade. Saudosos de casa, os dois param, perplexos, diante de um cineminha, em razão do letreiro: “Aujourd’hui, Paraíba mon amour”. Isso mesmo, expressões do mais legítimo forró paraibano nas telas da Suíça.
Jamais esquecerei. Era eu criança, e nossa lavadeira Sinha Vina (Minervina Francisca de Assis). Contadora de histórias, sentada no chão, em noites quietas. Morava no antigo Oitizeiro (hoje, Bairro dos Novaes) numa casinhola em barro e palhas. Vinha lavar nossa roupa a pé e voltava. Chamava os ônibus e autos de “besouros” e preferia vir pela Rua da Frente de Cruz das Armas, a trouxa sobre a cabeça, pisando firme; tinha a idade média, deixava a roupa limpinha, cheirosa (lavada com sabão de barra – “Jabacó”).
É assim que se diz quando o mar não está para peixe e é hora de irmos batendo nossa rica plumagem. São instantes quando sentimos que a situação não está fácil e vamos perdendo a paciência para certas coisas. Tenho aventado a possibilidade de tornar-me um ermitão, um anacoreta, um monge, qualquer coisa assim, deixar o cabelo crescer, não fazer mais a barba, usar trajes de linho cru, desses bem baratinhos, calçar alpercatas e ir morar numa dessas brenhas de mundo, onde não chegue sinal de TV e nem de internet., nem gente inconveniente para me perturbar.
Que causa mais repulsa em você: bandidos fortemente armados explodindo caixas eletrônicos e empresas de vigilância privada ou crimes de desvio de dinheiro público? Qual dessas condutas é menos nociva a seus olhos? Talvez venha à tona a velha estória do ovo e da galinha...
Em que pese vivermos em uma sociedade em que o nível educacional ainda é bastante baixo, está ocorrendo uma lenta mudança de paradigmas, em decorrência da influência exercida pela mídia e pelas redes sociais na população de um modo geral.
Ainda estou a indagar por que o poeta Marcus Alves me chamou para apresentar seu livro, seja como prefaciador da obra ou na noite de autógrafo. Eu que sou um leitor comum sem se apegar aos conceitos da leitura, da estética ou da métrica das frases.
Marcus Alves não precisa de apresentação, porque todos o conhecemos pelo seu trabalho como poeta e agente público exemplar ligado à cultura. Natural da cidade de Itabaiana, ele é sociólogo, professor e jornalista. Depois de publicar livros de poemas, agora faz sua estreia como contista.
Vejo como necessária a celebração da vida, da condição racional do homem, de sua possibilidade de escolhas. Mas bem sei do quão é desigual esse direito de escolha em nossa sociedade.
Chega-se ao ponto de ser quase um absurdo discutir o já tão repisado tema do livre arbítrio após um olhar para a foto que motivou este texto.
Convido o leitor que passe o olho na imagem, deixe que ela se fixe, que ela o veja e seja vista, que ela turve os seus olhos e suas certezas, suas verdades.
Vitor Nogueira
Em seu sermão sobre São Roque, o Padre Antônio Vieira nos diz que “em todo ato, em cada ser humano habitam muitas verdades”. Falo sobre as verdades que essa foto de Vitor Nogueira me despertou.
O livro Teorias da Arte (1998), escrito pela filósofa, crítica de arte, pintora, escritora e professora francesa Anne Cauquelin (1925), apresenta um estudo sobre a Estética e analisa o fundamento da arte contemporânea e o seu impacto social. Nele, a autora expõe os princípios no que se refere ao belo, do filósofo e matemático grego Platão (427 a.C. – 348 a.C.), do filósofo grego Aristóteles (384 a.C. – 322), dos filósofos alemães Immanuel Kant (1724 – 1804), Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770 – 1831), Arthur Schopenhauer (1788 – 1860), Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 - 1900) e Theodor Ludwig Wiesengrund-Adorno (1903 - 1969).
Ah, os prazeres que a natureza nos proporciona! São muitos, inesgotáveis. Por enquanto destacarei alguns: ver bichinhos brincando, passarinhos arengando, sentir o vento, passear num bosque, ver o nascer do sol, contemplar a lua cheia, o banho de rio, o banho de mar, o banho de chuva.
A chuva nos provoca sensações muito agradáveis, tanto para ver como para se molhar. Ela nos acompanha desde a infância. São memoráveis os banhos de chuva que tomávamos, geralmente contrariando ordens maternas.
Nesse pequeno texto, manterei o termo "descobrimento", visto que a data é marcada a partir de uma visão eurocêntrica e, sob essa lógica, será feito o presente comentário sobre o "Descobrimento do Brasil". Estou a menos da metade ainda da leitura do livro de Bauman, "Europa - Uma aventura inacabada", em que o sociólogo polonês nos fala do sentido europeu de viver no mundo, de se lançar em aventuras e de expandir
Emoções fortes revividas a cada dia podem nos levar a instantes sem mágoas e arrependimentos, mesmo que tenhamos cometido erros em momentos pouco pensados. E a paciência durante essa passagem, é uma virtude envolta ao respeito, beleza no trato, sem aperto no peito, tocada por uma viola de acordes com semblante intempestivo.
Não pensamos o suficientemente ordenados porque vivemos distraídos dentro das redes que pescam gente, e nos agarram por falhas expostas com facilidade.
"Sempre é tempo de desconstruir velhas crenças. Nem tudo é o que parece no teatro de sombras do mundo", é um mantra que repito enquanto examino três palavras: sim, não, talvez.
Comecemos por sim e não. Uma costuma representar aceitação plena e a outra rejeição absoluta. Pares de opostos – há até uma palavra sânscrita para isso: dwandwas. Noite e dia, chuva e sol, alegria e dor, sim e não.
Acaba de chegar às livrarias o livro póstumo do psicanalista e escritor italiano/brasileiro Contardo Calligaris, falecido em 30 de março de 2021. O título pode parecer à primeira vista um pouco (ou muito) ambicioso: O sentido da vida (Editora Paidós, São Paulo, 2023), mas logo o leitor perceberá que não se trata de pretensão nem de vaidade tola de autor metido a dono da verdade. É exatamente o contrário.
Certa vez, depois de aterrissar de uma viagem trazendo na bagagem tantas lembranças boas, cheguei para escrever em uma destas páginas em branco e não sabia nem o que falar... Não me dispus a usar a velha falta de assunto como tema, mesmo porque assunto em mente era o que não faltava. Mas depois de uns dias bem vividos longe de onde se mora, o corpo chega, mas a cabeça continua um bom tempo ainda por lá.
Por que um autor é consagrado e outro mestre do mesmo ofício é esquecido?” Quem fez a pergunta há muito tempo, com acento forte em “mestre do mesmo ofício”, foi um leitor-escritor de profunda vivência cultural, o saudoso Ivan Bichara Sobreira, intrigado com o desconhecimento do público e a negligência da posteridade letrada em relação às obras do paraibano José Vieira, tornado romancista brasileiro a partir de 1923 com o romance “O Livro de Thilda”.
Em agosto de 2004, o jornalista Hélio Fernandes escreveu na “Tribuna da Imprensa” do Rio de Janeiro um artigo com o título “A morte de um grande político”:
Hélio Fernandes
Morreu Thales Ramalho. Será impossível contar a história de bastidores de determinado período da política brasileira sem citá-lo [...] Foi o maior articulador ‘do lado de cá’, numa época em que Golbery era o maior articulador ‘do lado de lá’. Pode ser dito sem erro que Thales era o Golbery incorruptível. Tinha o fascínio e o prazer da conversa, que era sempre política. E naqueles tempos essas conversas podiam ser consideradas conspirações, só que em defesa da democracia. Se ela (a ditadura) só durou 20 anos muito se deve a Thales Ramalho, às ‘suas conspirações’.