Toda caminhada começa com uma espécie de salto no desconhecido, e o primeiro passo é um dos atos mais filosóficos da existência humana. Ele representa a passagem entre aquilo que somos e aquilo que ainda podemos ser. É o instante em que abandonamos, mesmo que por alguns centímetros, a segurança do lugar conhecido, para nos aproximarmos daquilo que ainda não conhecemos.
Edyr Augusto não escreve para confortar, e sua prosa em Não nos Deixeis Cair em Tentação funciona como um disparo em meio ao silêncio denso da noite urbanizada. O autor paraense constrói uma narrativa em que a tentação não é uma entidade metafísica ou uma abstração teológica, mas sim a engrenagem cotidiana de um mundo moldado pela
Edyr Augusto Proença, professor, escritor, jornalista, dramaturgo, diretor de teatro e romancista paraense que usa a face urbana, desigual, violenta e contraditória de Belém para território de sua literatura ▪️ Foto: Luiz Braga /// Livraria da Travessa
escassez, pelo impulso e pela ganância desmedida. Nas páginas deste livro, Belém surge não como um cenário meramente exótico, mas como um microcosmo pulsante das metrópoles contemporâneas, onde os limites morais são constantemente testados e diluídos pela necessidade imediata.
Eu acho, e acredito, que, dentro da agonia humana, o desespero leva ao haraquiri: o ato extremo de alguém tirar a própria vida. O japonês, pela ética e pela honra, fazia o haraquiri. Outros, na insanidade, na solidão ou na agonia, lançam-se da janela contra a própria existência.
Em 16 de junho do próximo ano (2027) ocorrerá o centenário de nascimento de Ariano Suassuna, patrimônio humano e cultural da Paraíba, de Pernambuco e do Brasil. É uma data importantíssima, sob todos os pontos de vista, e não poderá passar em branco. Os poderes públicos podem até ignorá-la, o que não surpreenderia num país que costuma subvalorizar as coisas da cultura, mas à sociedade civil não será dado esse direito, sob pena de abdicarmos, de vez, dos altos valores da nação e de nossa própria identidade nacional.
Sempre colecionei histórias sobrenaturais. Não por aquela curiosidade de quem passa a noite procurando fantasma para ter assunto no café da manhã, mas porque algumas histórias, quando escutadas com o coração desarmado, ajudam a conservar uma coisa que anda muito maltratada neste mundo: a esperança.
O vento que passa pelas árvores facilita a comunicação entre elas. O farfalhar das folhas embaladas pelo vento permite os cantos no coro das árvores; suas falas se interligam na língua das folhas. A Natureza é a grande mestra de tudo que somos, sentimos, pensamos, sonhamos e realizamos.
“Uma geração passa, outra fica no seu lugar, desde o tempo dos antepassados.
Os deuses que viveram outrora repousam nas suas pirâmides, assim como os bem-aventurados, enterrados (...).
Construíram casas, mas o seu local desapareceu. O que foi feito delas? (...) As suas paredes esfacelaram-se. Desapareceram como se nunca tivessem existido.
Ninguém volta do lugar (onde se acham) para contar como estão, para dizer o que precisam, para serenar o nosso coração até irmos para onde eles foram.”
“O Canto de um Harpista”, tumba de Intef, XI Dinastia
As ruas desta cidade já foram mais curtas quando andávamos a pé. O desembargador Osias Gomes, advogado dos mais solicitados, secretário de Estado, não via enfado em lombar a pé de sua casa, um daqueles chalés de quatro águas no alto da Almirante Barroso, até ao tribunal ou ao antigo convento dos jesuítas, quando secretário do Interior e Justiça.
Impressões de leitura de:
Crônicas, ensaios do escritor Francisco Gil Messias Editora Ideia
Logo que li o título das crônicas de Gil Messias, me veio à lembrança um livro de contos de Virginia Woolf, A arte da brevidade, achando que um de seus contos possuía o mesmo título. Na verdade, intitula-se A marca na parede. Em inglês: The Mark on the Wall. Os títulos se assemelham, há um parentesco entre eles. Todo leitor faz esse tipo de ilações; os livros se comunicam de uma forma ou de outra, consciente ou inconscientemente.
Pássaro cativo
teu canto é um chamado
para a liberdade. Neide Medeiros. Relicário
Livros de pequenos formatos sempre me atraíram. O menorzinho que tenho mede (2cm x 2.5cm). Foi adquirido em uma Feira de Livros em Barcelona no dia 23 de abril, não me recordo o ano. Traz o título de Sant Jordi. Nesta data, comemora-se o Dia Mundial do Livro e do Direito do Autor. A cidade de Barcelona fica em festa, as pessoas saem para as ruas, compram livros e flores e presenteiam para os amigos, namoradas(os). É romântico dar livros acompanhados de flores. Tenho uma amiga que costuma presentear livros na companhia de uma garrafa de vinho no período natalino. É um presente também bem-vindo.
O Sertão Educa não é apenas um livro sobre o sertão; é um livro escrito a partir do sertão. Essa distinção é fundamental para compreender a força estética e intelectual da obra de Gilmar Leite Ferreira. Nascido da sua pesquisa de doutorado e posteriormente transformado em livro, o trabalho propõe uma reflexão singular: o sertão não é um espaço de carência ou atraso, mas uma instância pedagógica capaz de formar sensibilidades, valores e modos de existir.
No que diz respeito à terra dos Ciclopes, objeto deste ensaio, a tradição aponta, como localização mais provável, a Sicília, a chamada Ilha Trinácria, por causa dos seus três promontórios – o Peloro, a nordeste; o Lilibeu, a oeste; e o Paquino, a sudeste, formando um triângulo. Na narrativa homérica, não se nomeia a Ilha dos Ciclopes, de modo a se imaginar uma
possível localização. Além dessa grande ilha não nomeada, Odisseus faz referência a uma ilhota, onde ele fundeou o grosso de sua frota (Canto IX, versos 116-117; 136-151).
Na minha juventude, era comum a gente se apaixonar por algum artista famoso. Isso fazia parte da vida e era um acontecimento especial. Nossos ídolos eram como super-heróis: míticos e inatingíveis. Restava-nos sonhar com a possibilidade de conhecê-los pessoalmente, um dia.
IGARAKUÊ significa “canoa virada”. Era assim que os povos nativos reconheciam e nomeavam o peixe-boi quando ele subia para respirar. Mamífero aquático, o Trichechus manatus expunha o dorso arredondado sobre a água e, por um instante, seu lombo lembrava o casco de uma canoa emborcada. O nome nasceu de uma observação precisa e, ao mesmo tempo, imagética: subir, respirar e desaparecer novamente.
Não, eu não tinha perdido para sempre, como supunha, nem emprestado sem retorno o “Zélins, Flamengo até morrer”, livro contendo crônicas esportivas de José Lins do Rego selecionadas por Edilberto Coutinho. Encontrei-o, com o coração em festa, no fundo da grande caixa de papelão esquecida num quartinho da casa antiga onde hoje mora o mais velho dos meus três filhos. Ali, ainda jaziam outros livros e uns 150 recortes de matérias minhas no “Jornal do Commercio”, do Recife,
Não será novidade a sensação de estranheza que acomete boa parte da Humanidade terrestre nesse período de ocaso expiatório-provacional e de alvorecer de uma Nova Era de regeneração.