Morremos todos os dias. A pele se expressa entre vida e morte. Interpretamos pausas. Movemo-nos em pulsões sexuais, em mundos alheio...

Quando a realidade toma conta do meu dia

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Morremos todos os dias. A pele se expressa entre vida e morte. Interpretamos pausas. Movemo-nos em pulsões sexuais, em mundos alheios, virtuais, ficcionais, visionários e até reais. Já não somos apenas seres naturais de carne, pele, ossos e sentimentos. Temos odores de perfumes e desodorantes e, num oco profundo, guardamos as sensações perdidas da nossa antiga e semelhante humanidade.
Falamos em sexo. Assistimos a sexo. Sexo se tornou imagem descartável. Somos semi-humanos. Ego, ciência, informação, mercado, tecnologia, trabalho, tempo e dinheiro constituem nosso cerne de poder. A massa desfrutável, consumida e consumível na voragem antropofágica do mundo. No que nos transformamos? Comemos a nós mesmos. A energia do medo impulsiona o caos que avança, embora nos pareça ilusório. No fim, conseguimos férias e pés na areia. O ruído é a energia das pessoas. A discórdia tornou-se necessária e urgente. Faz parte do viver insano. Todos com demandas; o amor esgotou-se antes de ser. As pessoas querem antídotos para a desilusão. Responsáveis pela dor. Descarta-se hoje o que ontem parecia definitivo. Termina-se o que nem chegou a começar.
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Aakash Dhage
Estática no tempo, resta apenas a imagem digital: o sorriso plástico, o instante fugidio do deslumbramento. Ao fim, já não sabem o que querem. Encontram-se nas fotografias e nos espelhos. Cópias de si mesmas. Genéricos humanos. Dinheiro é deus. Dínamo. Autor absoluto do tempo-produto, sem controle algum. Destilados em copos largos. Ideias visionárias atropelam a direção do futuro enquanto destroem o presente. Respira. Inspira. Expira. Fazemos nosso destino distante das mãos de Deus, hoje vendido em shoppings — templos populares erguidos sobre a barganha dos dízimos. O futuro é impaciente. E suas crias também. Nós, humanos, ansiosos e doentes, alimentamos a cadeia das drogas anestésicas, ansiolíticas e antidepressivas: a antividа silenciosa.
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Caleb Shong
Distantes de nosso termo original. Urgência máxima para não viver. Homens passam por Deus e por crianças famintas como quem atravessa vitrines. Carros amontoados apodrecem ao tempo. O lixo se decompõe. Computadores morrem como células da pele. Parceiros de sexo. Mas amor é outra coisa. Amor é coisa rara. Homens e mulheres tornaram-se possessivos. O pronome “meu” virou verbo absoluto. Já não se sabe o que é sério. Meninas vivem dramas enquanto procuram encanto nos vampiros do mundo. Todos querem esquecer alguma coisa. Todos querem ser vistos. Ter importância. Parecer belos. Dizer-se bons. Exibir uma alma editada para aceitação. E, no fundo — nem tão fundo assim — somos todos iguais: suscetíveis à dor, sustentando a imagem de que está tudo bem apenas para pertencer ao mundo. A este mundo. Anestesia-se para a dor sumir. Mas há dor demais no mundo. — E a quem importa? Quero florir. Brotar do chão feito flor. Quero ser amor.

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