Ela estava inconformada. A sua irmã havia se separado do marido, tinha três filhas pequenas e adolescentes e, mesmo sob o pedido de volta do marido, não queria mais ser casada. Havia descoberto a cerveja e o forró. Como pode? Só levando uma camada de pau. Mas a minha mãe vai botá-la nos eixos. A irmã tem cinquenta anos, mas quem já viu sair à noite para caçar forró por aí afora?
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Senti um ranço na sua voz de revolta. Aí piorei as coisas quando disse: “Pode ser uma fase. Está cansada. Buscando diversão. Uma hora, quem sabe, quer voltar para o marido e tudo se ajeita”. E ela: “Ôxe, já toda passada de mão em mão! Quem já viu? Mas mãe dará um jeito. Ela não bebia, que negócio é esse de tomar vinho e cerveja? Nãhhhh”. Lá pelas tantas, mencionou as filhas dessa mãe dançarina e disse: “A filha de dez anos, mesmo sendo preta, é linda!”
A vizinha ficou a pensar nessa conversa. Como entender a fala dessa mulher doméstica? Como desconstruir tudo isso? Por onde começar? Um túnel intransponível se instalou. Uma tristeza imanente. Um desânimo. Numa manhã em que tinha visto um marido jogar a mãe dos seus filhos penhasco abaixo, e sua mulher ficar engalhada, literalmente, num garrancho e sobreviver. Que fala é essa de uma mulher jovem, periférica e trabalhadora? Uma fala que aprisiona a mulher na domesticidade e no confinamento lá do
Li Becos da Memória, de Conceição Evaristo, há algum tempo. Ontem participei do grupo de leitura de Tati Bernardi sobre o livro, com a participação especial da escritora e especialista em Evaristo, Bianca Santana, autora de Apolinária. Romance em que ela, com a sua doçura, constrói uma violência generalizada. Utiliza-se da sua própria técnica — a “escrevivência”: “a ideia é a de que a mulher preta contou histórias para fazer menino branco dormir. E a escrevivência é para fazer homem branco acordar”. Conceição denuncia questões sociais na favela Pindura Saias, em Minas, com a sua gramática do cotidiano, num pretoguês, sobre as histórias que se amontoaram dentro dela como as casas amontoadas na favela, como diz: “dormir embolada com a vó Rita”. E lá vai ela com a força da palavra contra a dor, sobre pedaços e ficções de memória e uma escrita coletiva de mulheres negras. Histórias na primeira pessoa do plural.
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Conceição produz literatura para nos acordar. Nesse seu livro, formatado como um bloquinho de notas, há uma oralidade herdada da sua mãe, Joana, ironicamente (a casa da mãe Joana), cozinhando notas que até parecem becos, um nós emaranhados.
Fico a pensar nas memórias de Evaristo, no forró dessa mulher buscando liberdade e vivência dos seus desejos, nas domésticas e em seus resquícios de escravidão, tudo embolado, que nem no corpo da vó Rita. Penso também nas minhas faltas de um forró arrochado e de um beijo na boca.
Acho que vou conversar com essa vizinha...









