Não sabia que Hildeberto Barbosa Filho, esse alquimista de mil instrumentos, também era médico.

Hildeberto e a alegria estética

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Não sabia que Hildeberto Barbosa Filho, esse alquimista de mil instrumentos, também era médico.

Liguei para Gonzaga Rodrigues a fim de saber se ele estava melhor dos achaques e das angústias dos 93 anos de idade, imaginando ouvir aquela voz cansada, mas eis que o nosso cronista me respondeu:

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Gonzaga Rodrigues ▪️ GD'Art
— Estou muito, mas muito melhor. Estava cabisbaixo, "com os olhos no chão", mas li o tesouro de Hildeberto em A União de hoje e estou vendendo saúde. Ele me dedicou um texto que me convalesceu.

Gonzaga também falou do largo gesto de José Mário da Silva e de Neide Medeiros, que também lhe dedicaram um texto, cada qual em datas diferentes, no jornal centenário.

Depois que encerramos a conversa pelo telefone, fiquei matutando: é interessante como os poetas e os artistas reagem à alegria estética, ao júbilo despertado pela contemplação da beleza, como remédio para os males do espírito.

Realmente, acompanho alguns grandes poetas e grandes artistas e vejo que a vaidade deles é diferente da das pessoas que não têm a sensibilidade que eles têm.

Por exemplo: Milton Marques Júnior viaja frequentemente à Europa e nunca o vi se jactanciar de ser íntimo do Velho Mundo. A vaidade dele é achar
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Hildeberto Barbosa Filho, professor, doutor, poeta e critico literário, autor de diversos livros na área da literatura, poesia, ensaios, críticas e jornais literários ▪️ Facebook
uma edição rara de um grande autor ou assistir a um concerto.

Da mesma forma, Hildeberto nunca se vangloriou de posses materiais. Mas, da vez que estive na casa dele, apresentou-nos a biblioteca como se fosse o homem mais rico do mundo.

Flávio Tavares e Sérgio de Castro Pinto também operam sob a moeda da sensibilidade. Tal qual eles, Ana Adelaide e Solha cultivam alegrias de natureza estética, nas quais a descoberta de um poema, de uma pintura ou a cena de um filme vale, invariavelmente, uma fortuna na bolsa de valores de seus espíritos.

Até eu, que não tenho a sensibilidade desses caras, muitas vezes me reconcilio com o mundo e com o espírito lendo um poema de Drummond ou ouvindo uma canção de Caetano ou de Zé Ramalho.

José Américo de Almeida, mais escritor que político, gritou a plenos pulmões: só tenho uma vaidade, a literária. E não é vaidade, é alegria.

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José Américo de Almeida: "Só tenho uma vaidade, a literária. E não é vaidade, é alegria".▪️
Hildeberto, quando tomou posse na Academia Paraibana de Letras, em 1999, disse a sua verdade, valendo-se de Kafka: tudo o que não é literatura me aborrece.

De fato, mestre Hildeberto, a literatura e a arte têm o poder de fazer um nonagenário atender ao telefone com a voz de quem acabou de adolescer. Descobri, naquele momento, que adolescer é o contrário de adoecer.

E ainda existem pedras que perguntam para que serve a arte.

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