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E assim se passou o dia dos Namorados. Fiquei a pensar sobre o assunto e, como estou numa fase de acesso ao Fundo do Baú (comunidade virtual da qual faço parte), completamente rendida às mídias sociais, revirei meus baús e... Nossa! Gostei do que vi.

Já tivemos morticínio em massa, em circunstâncias mais adversas, mas nunca como este. Tivemos flagelos com seu pico em 1877, fartamente nar...

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Já tivemos morticínio em massa, em circunstâncias mais adversas, mas nunca como este. Tivemos flagelos com seu pico em 1877, fartamente narrado oral, artística e eruditamente. Com lances horripilantes, qual o de se sacrificar um ente da família para matar a fome dos demais. Coisas do Ceará, que também são nossas. Mas sempre restando um caminho ou um privilégio de resguardo, seja pelo clima, o do antigo brejo, ou pelo estrato social e econômico.

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Agora, quanto mais riqueza, menos gente tem de ir a Orlando, ao Oriente, aos mais tentadores destinos turísticos e negociais do mundo. O vírus, como o vento, não tem distinguido classes, mesmo que castigue de arrastão os mais expostos, que saem de camisa aberta sob os riscos da extrema necessidade.

No cólera, que através de dois séculos tem sido a nossa referência mais pavorosa, morremos 10 por cento dos 300 mil habitantes de então. Notabilizaram-se os benfeitores da higiene pública com a feitura de cemitérios. Nossa Igreja da Misericórdia não cabia no calcário de seus paredões os ossos dos religiosos mais ilustres; os da pobreza não há registro, salvo no Piancó onde já existia um cemitério feito sob o pálio de um frei Serafim; o de Soledade, inspirando o nome do lugar, teve a mão do padre Ibiapina. Houve qualquer coisa do gênero na notícia que Wilson Seixas dá de Pombal.

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As providências não eram muito diferentes das de hoje, quando o mundo dispõe de riqueza além do ouro para explorar a lua, os planetas, mesmo que se mate um negro como não se mata um porco, isto na nação mais rica de ciência e tecnologia. Um pavor de crime por uma ninharia certamente relegada se não fosse pela cor do delinquente.

Nunca imaginei enfrentar esta experiência depois de 87 anos de outras mazelas minhas e do meu povo. Os números da gripe espanhola e da febre amarela não ficam para trás, é certo. Mas a urbanização, hoje de 70 por cento da população, acabou com o isolamento natural da população rural. A vida geral e econômica era efetivamente agrícola, de densidade populacional rarefeita, morrendo-se mais de morte morrida, com os surtos da peste passando mais por longe. Se não havia médico rural também não havia urbano: o cólera nos pegou com 3 médicos e 2 acadêmicos. Foi quando Abdon Milanez ganhou fama, ao lado de um Poggi, um ascendente da Arnaldo da Beira Rio. Como agora, também não se contava com vacina, com nenhuma terapia de farmácia, só as de botica e os antifebris do mato ajudados pelo banho quente. O cólera matou no Estado o equivalente à população da capital.

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O relatório do presidente Pinto e Silva à Assembleia provincial, documento que por si só bastaria para guardar a memória de um condutor de povos que não nos pertencia (eles sempre vinham de fora) intima-nos a considerar, e bem, o esforço com que a Paraíba vem enfrentando a peste de hoje. Governador, prefeitos, secretários de Estado não só com a mesma máscara preventiva como, a dois metros dos nossos repórteres, também entregues sem trégua e corajosamente no mesmo empenho solidário.

O cólera, vindo do Pará e nos empestando através de Goiana, alastrou-se a partir de março e, já em maio, o presidente Pinto podia fechar com esse desafogo: “....a epidemia se acha quase extinta em todos os municípios, motivando todos, todos, homens livres e escravos, a celebrarmos a vida num grande e fervoroso Te Deum.”

Não merecemos menos, iremos ouvir de doutor João Azevedo e seus fiéis secretários a mesma clarinada para o Te Deum à vida e ao trabalho.


Gonzaga Rodrigues é escritor e membro da APL

Eu fazia o segundo ano ginasial. Meu colégio não era nenhum modelo de prática pedagógica, mas gozava de prestígio na cidade. Estava longe d...

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Eu fazia o segundo ano ginasial. Meu colégio não era nenhum modelo de prática pedagógica, mas gozava de prestígio na cidade. Estava longe de ser, como se costuma dizer de certas escolas, “pagou, passou”. Também não impunha aos alunos grandes desafios; estudando razoavelmente, a gente conseguia passar de ano até chegar ao temido vestibular. Isso permitia que eu tivesse um razoável sucesso, pois as peladas e os jogos de botão não me impediam de fazer os deveres e me preparar para as provas.

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Serafim entregava sacas de carvão nas casas. Faz tempo. Pouco ou nenhum fogão a gás nas cozinhas, as donas de casa colocavam as pedras negras, molhavam-nas com querosene, riscavam o fósforo no olho de marca, puxavam os abanos de palha entrelaçada para provocar o vento que vinha avivar as brasas. Um cheiro acre percorria todos os recantos, a fumaceira subia para as telhas de barro ou sumia pelas janelas abertas.

De médicos e de loucos... E Germano e Ângela saltam: “Puxa, vai começar tudo de novo, é??” Calma, amigos. Vou escrever sobre loucos, sim....

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De médicos e de loucos... E Germano e Ângela saltam: “Puxa, vai começar tudo de novo, é??”

Calma, amigos. Vou escrever sobre loucos, sim. Mas sobre aqueles que são loucos por bichos! É uma categoria de malucos saudáveis, na qual eu me enquadro em excelentes companhias. Por exemplo: os meus filhos Henrique, Ricardo e Ana Laura. Todos os meus netos. A nossa filha-sobrinha Salomé. Os meus amigos queridos Ângela Bezerra de Castro, Germano Romero, Marluce Castor e Josias Batista. E a minha amiga e fisioterapeuta, Lúcia Grilo. Que time, hein?!

Como aquilo me atraía. O reflexo dourado, a profusão de bolhas, o exagero de espuma. Perto dos 15 anos, atração igual eu apenas sentia pela...

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Como aquilo me atraía. O reflexo dourado, a profusão de bolhas, o exagero de espuma. Perto dos 15 anos, atração igual eu apenas sentia pela filha do melhor freguês do meu pai, moça já feita. Mal percebia que não era capaz de dar conta de uma coisa nem de outra.

É quando nos sentimos enlaçados, é quando nos sentimos à beira de um salto nos espaços abissais dos desejos, é quando os avisos de parar j...

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É quando nos sentimos enlaçados, é quando nos sentimos à beira de um salto nos espaços abissais dos desejos, é quando os avisos de parar já não são suficientes para nossa corrida.

Reticências e respiros. O nunca preencher-se. O sempre esborrar-se. O desencanto que chega repleto de encantamentos. O sono dos que nunca dormem. O sonho dos que nunca acordam.

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Talvez o amor seja simplesmente uma dobra de nós mesmos em relação ao outro. Talvez o amor seja apenas um alento para nossa imensa incompletude. Talvez o amor seja um desejo jamais satisfeito, algo imponderável e secreto, infinitamente secreto.

Mas nada disto importa. O que realmente nos faz sonhar, rir à toa e também lacrimejar é saber que o amor é a emoção que não nos permite o sentir-se só. O amor não é ajuste, é completude que não se completa. O amor não é um só, posto que isto é preencher-se da própria individualidade.

Amor não é justaposição. É tão somente um reflexo, um lampejo. Tal como a lua obscura e triste se enfeita de luares quando o sol nela irradia seus solares, a tornando prateadamente encantada.

E se o amor não é perene é porque nos diz da nossa finitude toda vez que se esvai. E se o amor não é eterno, amar nos eterniza. Desta forma, isto nos permite amar sempre, diferentes pessoas, de diferentes maneiras, em espaços e tempos distintos.

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Assim, hoje, cultive seu amor. Não é preciso que se tenha namorado ou namorada pra isso. É só preciso que se tenha amor. E as artes de cuidar. Diga ao seu amor o quanto ele importa, o quanto ele é parte, o quanto ele lhe torna melhor.

Pense também nos seus ex-amores e recite baixinho um agradecimento por eles terem um dia escrito algo no seu livro da vida.
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Mas veja que as palavras não são sempre os melhores instrumentos. Um olhar, um toque.

Deixe vir seu amor. Não aquele romântico que tem final feliz e dias solitários. Deixe vir aquele amor que é só seu. Mas que é tanto que escorre pra outros. Sim, o amor é fluidez. Ribeirinho que escorre manso e verdeja as margens que toca. Amor é porta aberta, mourão sem porteira. De catracas livres se sustenta o amor. Entra pela sala do olhar, arrepia os pelos do desejo, vibra as células da pulsação da vida, se espraia qual vírus nos hálitos dos amantes, se mistura qual cascata em lábios de saliva doce.

Com átomos de amor somos feitos. Órbitas da atração que não se traduz. Mas há algo que traduz a maior das artes do amor: o tornar-se mais humano, demasiadamente humano, porque me reconheço em cada um daqueles que meu amor tocou.

Ontem foi aniversário dele. Há noventa e sete anos, Carlos Romero desembarcava para mais uma jornada, desta vez em Alagoa Nova. Ninguém pod...

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Ontem foi aniversário dele. Há noventa e sete anos, Carlos Romero desembarcava para mais uma jornada, desta vez em Alagoa Nova. Ninguém podia imaginar que aquele bebê, que só se demorou no brejo por 4 anos, se mudaria para a capital e depois voltaria, já com 30, casado com a bela Carmen, para exercer o cargo de juiz da cidade pacata, de clima bom, e de gente simpática. Seus pais, José Augusto e Maria Pia, já haviam deixado naquela terra os bons fluidos da ilibada conduta. Era meio caminho andado para o retorno do rebento.

Umas simples estrelinhas de São João. Vocês sabem do que se trata. Elas são o mais inofensivo, o mais humilde e o mais sem graça dos fogos ...

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Umas simples estrelinhas de São João. Vocês sabem do que se trata. Elas são o mais inofensivo, o mais humilde e o mais sem graça dos fogos juninos. Normalmente são compradas para as crianças menores e mais bobinhas, as que não podem ainda se arriscar nas bombas e foguetões. Se os seus destinatários não fossem mesmo tolinhos, por conta da pouca idade, certamente sentir-se-iam discriminados por receberem, para celebrar a festa do mês de junho, os fogos mais simplórios, ao contrário dos outros, os mais velhos, com seus artefatos barulhentos e brilhantes. As estrelinhas não emitem qualquer som e a pouca luz que produzem, quando acesas, é menor que a de um vagalume.

Acalanto Por força do destino tornei-me tecelã, Mas não reclamo. Exerço meu ofício e amo. Como acalanto de cada manhã, Mistur...

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Acalanto


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Por força do destino tornei-me tecelã,

Mas não reclamo.

Exerço meu ofício e amo.



Como acalanto de cada manhã,

Misturar traços, linhas e matizes,

Para alegrar-me na terra

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