Seu Lau e d. Rita moravam numa ponta de rua sem saída. Menino ainda, eu jogava bola de gude na rua sem calçamento. A turminha do burac...

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Seu Lau e d. Rita moravam numa ponta de rua sem saída. Menino ainda, eu jogava bola de gude na rua sem calçamento. A turminha do buraco. Gostávamos do espaço da nesga de rua fronteiriço à casa do casal porque era molhada, fofa por um cano soltando água utilizada por Nevita.

Nem se pensava em saneamento. Vinham detritos (os menos desejados e imundos )que escorriam pela ruela enladeirada na maior naturalidade do mundo. Ninguém era tolo para reclamar. O amante de Nevita puxava o revólver e berrava impropérios contra quem se atravesse a abrir o bico ou ameaçar denúncia.

Possuir forte convicção de que a ressurreição é intrínseca à própria vida não parece uma ideia plausível à maioria dos mortais. Nem ...

Possuir forte convicção de que a ressurreição é intrínseca à própria vida não parece uma ideia plausível à maioria dos mortais. Nem dos “imortais”... Principalmente em meio à diversidade de ideias que ao longo de milênios brotam de reflexões, estudos e filosofias inspirados no saber.

O nascimento, a infância, o amor, as amizades enfeitam a vida, ainda que entremeados por sofrimentos inerentes à própria condição humana. No entanto, mesmo que a morte seja a maior das certezas nossas, o fato inexorável constitui-se há séculos como

      QUANDO ESTENDI SEU CORPO NA AREIA Não sei mais de nada. O infortúnio é próprio da falta de sentido. (Ou será a fortuna...

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QUANDO ESTENDI SEU CORPO NA AREIA
Não sei mais de nada. O infortúnio é próprio da falta de sentido. (Ou será a fortuna de ter te conhecido sob o efeito do álcool?) A razão são as estrias que acumulamos na pele, e descamam a cada verão escaldante. Quando estendi seu corpo na areia, à semelhança dos fósseis, um outro tempo dizia qual o nome e o motivo de nosso encontro, e o quanto de surpresa preencheria o vazio de nossa existência.
SILÊNCIO ÁCIDO
Falo agora do seu silêncio, dizendo: se afasta de minha boca Eu queria me recordar, mas o vazio tem a força que aspira os sonhos, e a memória é um tempo perdido no não encontrar o seu abraço (O cinza não suporta o negro das noites e seus redemoinhos) Não aceito esta morte, perder o amor arrebatado do paraíso do seu nome, e a balança que rege as mãos, e o sentido dos gestos, a mentira de rosto limpo nas manhãs de paz Não quero ser obrigado a parar a noite, uma parte constrita de minha existência pertence ao desespero de sua sombra Eu me curo no tardar de sua partida.
DE IRMÃO PARA IRMÃO
Meu irmão tinha uma mala de livros um dia ele a abriu na minha frente e partiu para o desmedido entrei na mala e me cobri com as páginas de seus sonhos.
O DECLÍNIO DO ÚLTIMO DIA
Os restos de ontem combinam com os corpos de outras eras. São os mesmos mortos, as mesmas taças, o mesmo desperdício. A tradição das luvas e das meias, as fendas na carne, as porções de nozes sobre a mesa e as varejeiras, tranquilas, sobre os castiçais
BRUMADINHO
Eu não saberia dizer, estou atordoado, pisar o sem fundo das casas, entrar pelos telhados na vida das pessoas, saber os muitos tons da verdade, que a terra engole a fala dos homens e os aniquila com esse funil de lama tragando o ar e a voz de Minas. O mito é o pássaro que sobrevoa a tarde? Não, isso é poesia, e estou falando da morte.


As horas não são confiáveis, traiçoeiras, se repetem com sua vulgaridade sem fim, ostentando seu desejo de consumir cada espanto que nasce, cada corpo que tomba.


Desenterre os ossos ─ e seus medos sem face ─ deixados em outro tempo. E sobre a areia despeje o brinquedo de armar, essa cama da carne da marionete adormecida.

(do livro XXI Sombras, em fase de edição)

Domingo de carnaval, a folia corria solta nas ladeiras de Olinda. O frevo contagiava todos, difícil alguém ficar parado. Era o dia do ...

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Domingo de carnaval, a folia corria solta nas ladeiras de Olinda. O frevo contagiava todos, difícil alguém ficar parado. Era o dia do maior bloco, o Elefante de Olinda, que passava arrastando todos, num imprensado em que os foliões ficavam quase sem tocar os pés no chão de tanta gente pulando junta.

Aí pela terceira cerveja, um dos amigos repisou a ideia – por sinal bem velha – de que a vida é um filme. Cada um...

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Aí pela terceira cerveja, um dos amigos repisou a ideia – por sinal bem velha – de que a vida é um filme. Cada um bem ou mal protagoniza o seu, e não adianta chorar diante do resultado. Quando se chega aos cinquenta, sessenta anos, o filme está feito, acabou o orçamento. Não há mais tempo senão para exibi-lo e, independentemente do que apareça na tela do tempo, contemplá-lo. Mas a verdade é que poucos têm interesse pelo filme da própria vida. Só aquele ar de déjà vu... A vida, um filme! E cada qual, animado pela quarta cerveja, tratou de repassar o seu. Fragoso pediu a palavra e foi sincero:

O tempo não é visto pelo olho do homem, e como o passado teima em sussurrar, os mortos não estão tão longe assim. Estão logo ali, em ...

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O tempo não é visto pelo olho do homem, e como o passado teima em sussurrar, os mortos não estão tão longe assim. Estão logo ali, em algum outro lado. Eles estão juntos agora. Nós é que estamos sozinhos desse lado. Necessitamos da proteção de alguém que possa nos amar, abraçar, encantar, ensinar a ser gente completa para seguir com segurança, como toda pessoa espera, com sua alma aberta e esperançosa. Podemos ser sozinhos juntos. E se você decidir tocar o mundo ou sua vida, já está de bom tamanho.

Quando o relâmpago cortava o céu além de Arara, meu pai se animava, fazia os acertos finais com os trabalhadores, meeiros ou não, para ...

Quando o relâmpago cortava o céu além de Arara, meu pai se animava, fazia os acertos finais com os trabalhadores, meeiros ou não, para começar o preparo dos roçados.

Quando escutava dizer que chovia no sertão, e ao observar as nesgas de nuvens no céu do Brejo nos primeiros meses do ano, era sinal da proximidade de chuva. A terra já tinha recebido o trato para acolher os grãos de milho, feijão, fava e os toros de maniva. Tudo isso trazia a certeza de que seria possível colher os frutos da terra durante os festejos juninos.

Li na coluna de Elio Gaspari, em O Globo, que o ex-presidente norte-americano Jimmy Carter, aos 98 anos, recolheu-se ao rancho da fa...

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Li na coluna de Elio Gaspari, em O Globo, que o ex-presidente norte-americano Jimmy Carter, aos 98 anos, recolheu-se ao rancho da família para aguardar a morte. Está recebendo os chamados cuidados paliativos para enfrentar o fim com dignidade e um mínimo de conforto. É um nome importante na história mundial do século XX e também um nome a ser lembrado em nossa história nacional.

N o silêncio da tarde calma e doce, penso em nós, humanos, frágeis peças de um quebra-cabeças cósmico. Nos meus fones de ouvido, a vo...

cerejeira cherry arvores
N
o silêncio da tarde calma e doce, penso em nós, humanos, frágeis peças de um quebra-cabeças cósmico.

Nos meus fones de ouvido, a voz de Eric Burton sussurra vulnerabilidades e urgências.

Contemplo o cenário de risos e choros de um mundo aprisionado entre tempestades e arco-íris e desejo inutilmente que algo nos resgate de nós mesmos.

Acredito que, pelo fato de ser médico, as minhas incursões na literatura brasileira foram preponderantemente focadas e norteadas na ...

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Acredito que, pelo fato de ser médico, as minhas incursões na literatura brasileira foram preponderantemente focadas e norteadas na vida e na obra de Guimarães Rosa, que também pertenceu ao discipulado hipocrático.

Cultivo um ponto de vista estranho e mesmo confuso ante o significado humano do progresso. Talvez seja o dicionário Aurélio o que ma...

Cultivo um ponto de vista estranho e mesmo confuso ante o significado humano do progresso. Talvez seja o dicionário Aurélio o que mais concorra para a babel que o assunto assanha em minha cabeça. Diz lá como primeiros significados: “Progresso - Movimento ou marcha para a frente; desenvolvimento; aumento; adiantamento em sentido favorável”. Sem acrescentar o harmonioso. Deve ter sido este o sentido perseguido na divisa positivista da bandeira.

A lenda é contada de várias maneiras, mas todas têm um final parecido. A filha de um cacique Potiguara se apaixonara por um guerrei...

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A lenda é contada de várias maneiras, mas todas têm um final parecido. A filha de um cacique Potiguara se apaixonara por um guerreiro da nação Cariri, que havia sido aprisionado e condenado à morte por sua tribo. Inconsolável com o sacrifício do seu amado ela se internou na mata e chorou durante cinquenta luas e as suas lágrimas alimentaram uma vertente de água que terminava em uma fonte a qual deram o nome de Tambiá, em referência ao indígena que fora sacrificado.

O estômago vazio aplaude qualquer coisa que venha lhe curar a dor de passar horas sem nada em seu interior, mas, quando temos ao menos...

O estômago vazio aplaude qualquer coisa que venha lhe curar a dor de passar horas sem nada em seu interior, mas, quando temos ao menos três refeições durante o dia, é diferente.

Como acontece desde 1952, a cada dez anos o British Film Institute (BFI) e a revista inglesa Sight & Sound divulgam a lista dos m...

Como acontece desde 1952, a cada dez anos o British Film Institute (BFI) e a revista inglesa Sight & Sound divulgam a lista dos melhores filmes do mundo. E a de 2022 acabou de sair.

Victor Hugo, apesar do estilo familiar ao seu leitor habitual, é sempre imprevisível. É o que constatamos em O homem que ri ( L'h...

victor hugo homem que ri
Victor Hugo, apesar do estilo familiar ao seu leitor habitual, é sempre imprevisível. É o que constatamos em O homem que ri (L'homme qui rit, 1869. In: Oeuvres complètes, Roman III, Paris, Robert Laffont, 2002), obra da madureza, em que predomina um olhar sobre a monarquia inglesa, na abordagem de uma particularidade da história, o momento próximo à experiência republicana na Inglaterra, a partir da revolução encabeçada por Oliver Cromwell (1642). A história e a política estão na essência desta obra, que contempla, ainda, os conflitos entre o amor puro e o amor degradado, a misantropia e filantropia; a espiritualidade e a sensualidade, mas sempre mantendo a rota em direção à unidade da trama – dura crítica à nobreza da Inglaterra, em contraponto com a miséria que ela trabalha para construir.

Hálito de Paz nas nuvens Gotas de nada Sobre a terra Mas uma Deusa acorda Traça o Céu de luz E o dono das pedras Ruge ...

poesia paraibana aurelio cassiano
Hálito de Paz nas nuvens Gotas de nada Sobre a terra Mas uma Deusa acorda Traça o Céu de luz E o dono das pedras Ruge Uma mulher Vestindo amarelo De pés descalço Rega o córrego O dono do tempo Faz o tempo Das coisas necessárias E brota do chão