Os causos que vez ou outra publico nesta coluna não são invencionices ou frutos de minhas maldades. Chegam-me por “ouvi dizer” e nem posso...

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Os causos que vez ou outra publico nesta coluna não são invencionices ou frutos de minhas maldades. Chegam-me por “ouvi dizer” e nem posso declinar a autoria porque já percorreram tantas bocas e orelhas que não sei há quanto tempo habitam o imaginário de nossa gente. Fazem-me pensar um pouquinho até nos heróis de Homero que ganharam o mundo através da oralidade e assim seus feitos atravessaram gerações.

Dizem que perdoar é ato dos fortes. Não duvido, eis que guardar ressentimentos é bem mais comum em nosso comportamento. Ressentimento sig...

Dizem que perdoar é ato dos fortes. Não duvido, eis que guardar ressentimentos é bem mais comum em nosso comportamento. Ressentimento significa sentir novamente, e geralmente cultivamos o hábito de trazer aos nossos painéis mentais sentimentos negativos vivenciados em algum momento de nossas vidas, bem como as pessoas ou grupos que responsabilizamos por tais eventos.

Talvez por estarmos mais habituados a nos comprazer com a dor, decepção e mágoa, por algum atavismo cujos meandros não serão objeto desta reflexão, (por se tratar de assunto complexo e controverso), ou pelo simples fato de não cultivarmos com a mesma disposição a gratidão.

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Na terra, somos invariavelmente visitados por um número incontável de decepções e dores, desgostos, medos e frustrações, mas também por outro número, talvez bem maior de momentos de alegria, felicidade, conquistas, demonstração de amizades, solução de conflitos e êxito, em alguns inúmeros tentames.

Não nos referimos tão somente aos êxitos materiais, mas também as vitórias sobre nossos vícios, falhas e defecções.

Não temos a pretensão de analisar com profundidade e/ou abordar a necessidade do perdão, como proposta religiosa, ou de evolução espiritual, na busca da passagem para um céu, nirvana ou paraíso, a depender da cultura. Mas tão somente pelo prisma da saúde mental, física e emocional.

Na prática do ressentimento, cultivamos invariavelmente a mágoa, que etimologicamente quer dizer má água. Se observamos o percurso de um córrego ou fonte cristalina, os movimentos do mar ou dos rios, percebemos que os mesmos, além da beleza e fonte de nutrição e hidratação, carrega em suas entranhas uma variedade de seres vivos, quer sejam vegetais, minerais ou animais, e pela força do movimento arrastam, para suas profundezas, ou para superfície, os corpos mortos, carregados de vibriões, larvas, fungos e bactérias.

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Pelo contrário, a água parada, serve de reserva de insetos, animais e vegetais mortos, que certamente têm sua função em a natureza, mas geralmente causa inúmeros males à saúde e bem estar do homem.

A mágoa, pode ser associada a um pântano ou lago, com suas águas, pestilentas e insalubres, e em alguns casos, periculosas, como as que estão carregadas de lixos tóxicos ou resíduos indústrias, causando enfermidades, deformações fetais e morte. E estas condições são agravadas pela ausência de movimento, ou seja, por estarem paradas. O ressentimento, que vem posteriormente à mágoa, apresenta uma estrutura funcional semelhante. De tanto trazermos à nossa mente imagens de eventos dolorosos, traumáticos e frustrantes, bem como a raiva das pessoas eventualmente partícipes ou causadoras desses eventos, essas imagens se sedimentam dando lugar à mágoa que, à semelhança de ferrugem, ou qualquer elemento cáustico, vai, aos poucos, corroendo nossas resistências físicas, mentais e emocionais.

Quando nos dispomos a perdoar, ou seja, desculpar ou compreender os limites do outro, tentando resignificar a dor que causou o trauma, fazemos um movimento análogo ao dos rios e mares, jogando para a supercie de nossa consciência, iniciando um processo de recolhimento daquele lixo mental que hora nos intoxica. Ou jogamos para as profundezas de nossa memória, de forma a não permitir que a dor seja experienciada cada vez que à lembrança visite nossos painéis mentais.

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Não se trata de processo fácil, portanto não podemos nos iludir e realçar essa dor, fazendo uso de muletas psicológicas que podem vir a piorar nosso quadro, podendo, num momento ou outro, quebrar as comportas que impediram o escoamento dessas águas e causar um destrambelhamento em nossas já frágeis resistências, levando-nos às fugas espetaculares, através do abuso de drogas lícitas ou ilícitas, sexolatria, entretenimentos perigosos ou isolamento social, e até mesmo ao autocídio, ou suicídio.

É um processo que exige, vontade, perseverança e calma, eis que na natureza nada acontece de assalto.

Se o outro não aceitar o nosso perdão, não nos diz respeito, posto que perdoar nos tirará dos grilhões do ódio ou da mágoa, e essa alforria é pessoal, não dependendo da aprovação ou aceitação do outro.

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Também não significa que refaçamos os líamos que foram quebrados, ou desrespeitados, ou que esqueçamos o ocorrido, afinal não se trata de amnésia ou Alzheimer, mas tão somente de deixar o evento no passado, lugar de onde nunca deveria ter saído.

Caso seja necessário, procuremos ajuda profissional ou mesmo religiosa, isso claro, sem fanatismo ou candidatura à santificação, para não adentrarmos num processo também grave, que é o da negação ou hipocrisia, pois esse tipo de ferrugem corrói nossa estrutura psíquica de dentro para fora, e não o contrário.

Viver é preciso, e viver de forma leve, sem mágoa ou ressentimentos desnecessários.

Vânia de Farias Castro é advogada e poetisa

É atribuído a Beethoven o seguinte diálogo. Já idoso, surdo e misantropo, numa das múltiplas trocas de domicílio em Viena, o compositor e...

É atribuído a Beethoven o seguinte diálogo. Já idoso, surdo e misantropo, numa das múltiplas trocas de domicílio em Viena, o compositor enquanto compunha sinfonias e estando em meditações, perguntou ao novo amigo que transpôs a porta de entrada de sua casa:

- O senhor tem árvores em seu quintal?

Pertinho do carnaval, eles saíam às ruas em comissão pedindo dinheiro aos moradores. Eram pessoas conhecidas, pobres, honestas e muito que...

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Pertinho do carnaval, eles saíam às ruas em comissão pedindo dinheiro aos moradores. Eram pessoas conhecidas, pobres, honestas e muito queridas no Roggers, bairro que mudou de nome porque o dono da única linha de ônibus não sabia escrever “nome de gringo”. Sempre às manhãs de domingo, lá iam eles: Luís Monteiro, Agostinho Tomáz, Henrique Nascimento, Mário Teixeira, Eulálio Martins, Severino Lima, Edilson Paiva, Severino Almeida, Pedro Coutinho (pai do desembargador Júlio Aurélio), entre outros cidadãos comuns, recolhendo contribuições para o carnaval. Recebidos com satisfação aonde chegavam, os organizadores do carnaval do Roggers formavam

Não basta só uma vida, para ser mãe. Às vezes, sinto que a mãe (“órfã de filho”), fica sem jeito em responder quanticamente sobre os fi...

Não basta só uma vida, para ser mãe.

Às vezes, sinto que a mãe (“órfã de filho”), fica sem jeito em responder quanticamente sobre os filhos... como se incluir quem já não está fisicamente, fosse errado.

Não se deixa de ser mãe, quando um filho vai para outro plano, apenas, nos tornamos mãe em dois mundos, eternizamos nossa maternidade.

Há 110 anos, vinha a público um dos livros mais estranhos da literatura brasileira. Seu título? “Eu”. Seu autor? Um paraibano magro, nasci...

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Há 110 anos, vinha a público um dos livros mais estranhos da literatura brasileira. Seu título? “Eu”. Seu autor? Um paraibano magro, nascido em engenho de cana-de-açúcar, que tinha no magistério o seu ofício e na poesia o meio de traduzir as obsessões que lhe tumultuavam o espírito.

Neste mês de fevereiro está sendo comemorado o centenário da Semana de Arte Moderna, evento que se deu no Teatro Municipal de São Paulo,...

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Neste mês de fevereiro está sendo comemorado o centenário da Semana de Arte Moderna, evento que se deu no Teatro Municipal de São Paulo, sob a liderança do escritor Mário de Andrade, e que pretendeu, digamos assim, inaugurar o modernismo literário e artístico na Terra Brasilis. Sei que muito será escrito e publicado a respeito. E com razão, já que se trata realmente de data importante de nossa história cultural, a despeito das controvérsias inevitáveis. De minha parte, como forma modesta de participar do momento, escolhi comentar sucintamente a visita do célebre Andrade à Paraíba, nos idos de 1929, portanto ainda sob o eco do movimento por ele liderado.

Paraíba, 20 de fevereiro de 2022

Paraíba, 20 de fevereiro de 2022

Quantas vezes ouvi, pelo rádio, a propaganda do Phymatosan – com a mesma... canção “Daisy Bell” que vi, em 1968, o computador HAL 9000 não...

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Quantas vezes ouvi, pelo rádio, a propaganda do Phymatosan – com a mesma... canção “Daisy Bell” que vi, em 1968, o computador HAL 9000 não conseguir cantar até o fim, no filme “2001”, ao ter a memória destruída pelo astronauta David (numa sutil versão do embate Davi/Golias):

Há momentos em que podemos nos dar ao luxo de pensar sobre o porquê de determinados acontecimentos ocorrerem em uma época, ano, ou em um ...

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Há momentos em que podemos nos dar ao luxo de pensar sobre o porquê de determinados acontecimentos ocorrerem em uma época, ano, ou em um período qualquer da vida.

É comum pensar que a manifestação artística, tomando como exemplos a música e a literatura, vivem um declínio relativo com o que já foi produzido em determinado tempo, usualmente vinculados aos nossos tempos de juventude e estabelecendo esta fase como um marco imbatível de criatividade.

Em janeiro de 1937, há 85 anos, dentro das comemorações do segundo aniversário da administração do governador Argemiro de Figueiredo, era ...

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Em janeiro de 1937, há 85 anos, dentro das comemorações do segundo aniversário da administração do governador Argemiro de Figueiredo, era inaugurada a Rádio Difusora da Paraíba, um marco na radiodifusão no Estado. Três meses depois, o governo estadual conseguia junto ao órgão nacional competente a alteração no nome da emissora, que passou a ser denominada Rádio Tabajaras.

Até aos que não ouvem é possível o mar cantar. Com o céu faz um dueto, em busca um do outro. No desenho ondulado infinita é a arte. Quebra...

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Até aos que não ouvem é possível o mar cantar. Com o céu faz um dueto, em busca um do outro. No desenho ondulado infinita é a arte. Quebra ali, surge acolá, explode adiante, sempre a rir bordando a espuma.

Aos que o ouvem, um deleite sinfônico em todos os timbres. Do grave robusto ao mais fino agudo, nuances sonoras, nunca iguais, formam seu canto, ainda que a rotina lhe escreva a pauta, ano após ano, era após era…

Foi justo, mais que merecido, o comportamento dos que fazem a TV Cabo Branco ao trazer de volta, bem vivo e em grande estilo, o velho Chic...

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Foi justo, mais que merecido, o comportamento dos que fazem a TV Cabo Branco ao trazer de volta, bem vivo e em grande estilo, o velho Chico Maria. Não foram poucas as vezes em que me vi preso à entrevista mais pela pergunta de Chico do que pelo que viesse do entrevistado.

Sainte-Beuve, considerado o patrono dos críticos franceses, não reconheceu a grandeza de Stendhal, Baudelaire e Balzac. Sílvio Romero fez ...

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Sainte-Beuve, considerado o patrono dos críticos franceses, não reconheceu a grandeza de Stendhal, Baudelaire e Balzac. Sílvio Romero fez pouco caso da obra do mestre Machado de Assis, para glorificar Tobias Barreto. Voltaire zombou de Homero. Tolstoi não aturava nem Shakespeare nem Victor Hugo. Proust permaneceu praticamente ignorado quando era vivo, assim como Nietzsche. Este não faria questão de um número considerável de leitores. Contentava-se com dez que o lessem com a condição de serem inteligentes. Esses são alguns dos muitos exemplos de escritores que tiveram suas obras pouco prestigiadas ou ignoradas.

A melhor definição que já vi para o epigrama encontra-se em Os sertões, de Euclides da Cunha. O escritor fala da organização metódica do M...

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A melhor definição que já vi para o epigrama encontra-se em Os sertões, de Euclides da Cunha. O escritor fala da organização metódica do Marechal Carlos Machado de Bittencourt, então secretário de Estado dos Negócios da Guerra, posto equivalente ao do antigo Ministro da Guerra, tomando as providências para criar uma base de operações, de modo a fazer fluir os comboios e apoio para as tropas da quarta expedição sitiadas em Canudos. Euclides traça o seu perfil como o de homem “friamente, equilibradamente, encarrilhado nas linhas inextensíveis do dever. Não era um bravo e não era um pusilânime” (“A Luta”, Parte IV – Quarta Expedição, Capítulo VIII, p. 541). Homem das normas, Machado de Bittencourt “tinha o fetichismo das determinações escritas.

Ninguém é feliz. Com sorte, a gente é alegre.... A vida gosta de quem gosta dela. A Suprema Felicidade , filme de Arnaldo Jabor Contin...

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Ninguém é feliz. Com sorte, a gente é alegre.... A vida gosta de quem gosta dela.
A Suprema Felicidade, filme de Arnaldo Jabor

Continuo a falar da Felicidade... da Felicidade do filme A Suprema Felicidade, do polêmico Arnaldo Jabor, falecido no último dia 15. Jabor disse que nasceu dentro de uma câmera e que este filme é uma volta ao passado, em que devolve sua vida a seus pais e ao Rio que o viu crescer. Comenta sobre a nostalgia do que era ser cineasta na sua época e dos sonhos dos “Cahiers du Cinema”: