A composição de um mosaico de histórias pode ser aprendido nas páginas de um livro bem narrado, que nos transporta ao momento da escrita do autor. Se o livro for mal-ajambrado, e não levar ao fundo dos sentimentos do personagem, fica difícil ser atraente para um leitor mais crítico.
Espiando as rochas negras pela fresta da janela, veio logo a sensação de um claro “déjà vu”. Se bem que a lembrança não estava associada ao cenário que eu olhava. Mas apenas ao contexto transcendente e sem igual, pois que era bem antigo todo aquele visual.
Washington Rocha é um dos mitos, se é que posso dizer assim, de minha juventude. Ginasiano no extinto Colégio Estadual do Roger na segunda metade dos anos 1960, não consigo dissociar aquela época da figura carismática do líder que, literalmente, com a força da palavra e do idealismo, levantava e inflamava multidões de jovens estudantes em históricas passeatas em favor da democracia, naqueles tempos de ditadura militar recentemente instalada no país. Ele também era jovem, praticamente da idade dos seus liderados, mas com esta diferença fundamental:
Sento-me num dos bancos dos jardins da Fundação Casa de José Américo, repetindo o gesto de quando preciso meditar um pouco. Respiro, sentindo a brisa leve da praia, o cheirinho da Mata Atlântica e ainda recebendo a energia plena do ponto mais oriental das Américas, no bucólico e aprazível Cabo Branco. Não existiria cenário mais encantador, para acolher o patrono, nos últimos anos de sua jornada terrestre.
De passagem certa feita pelo Louvre, avistei, por detrás de mil vidraças, um dos célebres Ovos Fabergé, que lá estava em exposição, emprestado do Krelim. No ensejo, sussurraram-me ao ouvido as nove musas em uníssono: tiveste muita sorte, mísero mortal. Pois o maioral da joalheria de todos os tempos, que produzira quase uma centena destes, nos mais nobres materiais que possa supor a vã filosofia, destinados aos presentes que Alexandre III, mandatário absoluto na Rússia czarista, costumava dar à sua amada esposa, Maria Feodorovna, legara pouquíssimos ao alcance de quem não se alinha
João Pessoa demorou três séculos e meio presa ao rio e de costas para o mar. Rio que alguns traduziam como mau, imprestável, pouco piscoso, e outros viam, pelas mesmas raízes, como braço de mar ou água que com o mar se confunde.
De qualquer modo, veio do rio o nome da terra. Foi nele que navegaram o índio, o colonizador fidalgo ou degredado, as armas, os mantimentos, os materiais de construção, inclusive as pedras trazidas do Rio de Janeiro para calçar a Rua Direita, além de outros importados menos grosseiros.
Saulo Romero de Andrade
Suas águas mansas coalhadas de lama foram portadoras do açúcar, do fumo, de todas as cabotagens atraídas para uma das capitanias mais prósperas do começo do século XVII, a Parahyba.
“(João Tavares) com 12 espanhóis bem concertados e satisfeitos, e 8 portugueses, em uma caravela equipada e concertada para tudo [...] partiu do porto de Pernambuco, a 2 de agosto de 1585; e aos 3, chegou pelo rio acima [...] aonde se viu [...] com o Braço-de-Peixe, e mais principais, no porto, que agora é a nossa cidade.
Assombrados os petiguares, primeiro com alguns tiros, presumindo mais força, fugiram [...] saiu o capitão João Tavares, dia de Nsa. Sra. das Neves, por cujo respeito depois se pôs esse nome à povoação, e a tomaram por patrona, e advogada, debaixo de cujo amparo se sustenta”
O sono acordou!
As estrelas ainda bailam no escuro do céu, era pra estar dormindo, mas resolveu saltitante correr pela noite.
Se recusava voltar a dormir.
O que teria acontecido para o sono acordar?
As luzes estavam apagadas; o silêncio conversava com a noite; então, porquê o sono não dormia?
Já sei, era aquela luz pequenina que iluminava o quarto como o dia.
Seria ela a responsável pelo sono acordar?
É melhor apagar, a claridade diminuir, para o sono voltar a dormir.
Volta sono!
Podes, por favor, deixar de pelo quarto bailar?
Não é hora de acordar.
Eu estava nas asas do sonho a viajar.
Porquê tivesses que acordar?
Volta sono, vem se deitar.
Deixa meu sonho seu voo voar.
Sono teimoso, não quer voltar.
Meu espírito tranquilo, tão feliz, estava a sonhar, mas o sono teve que acordar.
Sono, vem se deitar!
Me deixa no sonho viajar.
Serena quero me encontrar, naquela linda beira-mar.
Vem sono, vem se deitar!
Deixa de me atormentar!
Vem sono, vem se deitar, deixa apenas a noite com o silêncio tagarelar.
Vem sono, vem se deitar!
Me deixa mais uma vez sonhar.
Como pode minha felicidade no sonho brilhar, se você não vem se deitar.
Vem sono, vem se deitar!
Para de saltitar!
O dia já vai raiar, não vou poder mais sonhar.
A labuta vou começar.
Vem sono, vem se deitar!
A noite já vai nos deixar, não conseguirei, de olhos abertos sonhar.
Pode deixar.
Fica sono, fica onde estás, não precisa mais se deitar.
Já irei me levantar, para novo dia começar.
Vai sono.
Se deixa levar!
Nos raios do dia já poderás saltitar.
Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra maisOswaldo Montenegro
Eneas era professor de inglês na capital paulista. Professor de cursinho pré-vestibular dessa disciplina ou era muito bom de tablado ou os alunos debandavam quando era aula dessa matéria. Ninguém era obrigado assistir aula alguma. E de inglês, então? Alguns alunos já tinham feito intercâmbio, outros frequentavam cursos particulares. O fato era que em uma sala de cursinho, uns dois terços eram praticamente fluentes na língua. Por que assistir às essas aulas?
TRANSGRESSOR
Perplexo não me mexo
diante do reflexo
do cheiro, do tato,
no ato disfarço
o peso da luz
que soberana sobre mim.
Quero mostrar que
sou mais velho,
que estou ponderado,
que minha lucidez
transcendeu o romantismo,
mas que a pragmática
não me retirou
os sentimentos.
Ainda tenho memória
e, se os fantasmas dormem,
é porque estou
De-ma-si-a-da-men-te
acordado.
O poeta e cantador Jorgelino foi encontrado morto. A notícia caiu como uma bomba, alastrando-se rapidamente pelas cercanias. Estupefação, tristeza, choro, assim ficaram os ares de Bananeiras, Solânea, Casserengue e Arara. O carro de som percorria as ruas e anunciava por toda a cidade o passamento do poeta, dizendo encontrar-se o corpo na pedra do necrotério, marcando hora e local do velório e do enterro. O poeta se tornara lenda, mito, sendo logo objeto de loas,
Eu preferia o cavalo verde do carrossel Maia. Nunca entendi por que essa preferência pela cor. Havia um giro de fantástica ousadia, a empanada do brinquedo em listas largas, as crianças sorridentes montadas nos corcéis, subindo e descendo, a fila cada vez mais se estendendo, nas tardes de domingo no parque. Jacob do Bandolim tocando nas amplificadoras, o som saindo do vinil, atingindo o alto-falante grande no alto do poste. Havia montanha-russa movida a gasolina, canoas, rodas gigantes alçando sonhos ao alto, bolas de oxigênio inquietas amarradas em linhas de costura, namorados passeando, cachorros-quentes, maçãs do amor, amendoim confeitado. E muito mais: três ou quatro pavilhões enfeitados, superlotados, bilhetinhos tímidos de amor levados pelas garçonetes para as escolhidas dos frequentadores.
Talvez vocês não saibam que a Marquesa de Santos, depois de ter sido enxotada por D. Pedro I da Corte e forçada a retornar a São Paulo, viveu uma outra história incrível a partir dali.
Para os que estão chegando agora, trata-se de Domitila de Castro, por quem o Imperador cometeu todas as loucuras que o amor permite. Basta dizer que Sua Alteza a trouxe de São Paulo depois que ela havia se separado do primeiro marido (que lhe dera algumas facadas) e instalou-a bem em frente da residência da Imperatriz Leopoldina. Era pouco.
Na hora do gol eu pude vivenciar uma emoção única, uma sensação mágica. Sentimento de vivenciar um lindo festival de luzes dos fogos de Ano Novo, de encontro com velhos amigos, correr com o vento no rosto e a chuva por todo o corpo. Os pequenos instantes do domínio da bola, vê-la vencer a tentativa angustiada do goleiro em defendê-la, de cruzar a marca divisória: gol. Certeiro mesmo é que os sentimentos sejam inversos. Tudo de bom é como fazer um gol.
A Paraíba possui um dos monumentos rupestres mais intrigantes do País. São as Itacoatiaras do Ingá, um paredão rochoso de quase 20 metros de comprimento por uns três de altura repleto de figuras identificáveis (a exemplo de lagartos e espigas) e muitas outras abstratas, sem aparente significado.
A arte nos aproxima de antigas civilizações e com maior efervescência ao período glorioso dos gregos e romanos que moldaram o pensamento ocidental. Essa sensação de proximidade proporcionada pela Arte e a Poesia sempre ocorre quando visito algum templo de feições antigas.