As ironias capitalistas. O cemitério de Highgate, em Londres, está vendendo por 25 mil libras túmulos na proximidade da sepultura de Karl Marx, ponto turístico da necrópole londrina. Ou seja, quem desejar descansar para sempre ao redor da celebridade terá que pagar caro por isso. Definitivamente, pode-se dizer então que o velho Marx é pop, do mesmo modo como a rainha Elizabeth II, do Reino Unido, também o foi, e assim por diante. Mais que isso: virou uma mercadoria, um produto de luxo, com bom valor de mercado. O fato comprova que ninguém escapa do chamado “establishment”.
O Buda Sakyamuni se transformou numa linda mulher, cujo corpo rapidamente se degenerou, para convencer a cortesã Lótus de que toda beleza física é transitória.
Por que, apesar de breve, o belo exerce um fascínio tão intenso e poderoso? Por que sua concepção mudou tanto através do tempo? No que consiste a verdadeira beleza?
Com os divertimentos públicos do Natal transferidos para a Lagoa e nela ainda mantidos ninguém sabe até quando, lembrei-me, temeroso, de Augusto dos Anjos, do seu pequeno busto sob as vênias de um tamarindo para tanto plantado e a mostrar que tamanho não é documento, desde que se deva à arte de um Umberto Cozzo a quem, num ano qualquer da década de 1940, a primorosa escultura fora encomendada.
Um sino badala uma hora fechada na torre da Catedral Basílica de Nossa Senhora das Neves, chamando os fieis à missa. As batidas soam como uma memória longínqua que retorna a intervalos simétricos do tempo. Ao redor, os carros seguem fluindo pelas ruas próximas, descem pela Rua General Osório ou por laterais até sumir. Nas calçadas, um ou outro passante aperta o passo em busca das ilhas-sombras das árvores e fachadas dos prédios. O dia pela metade tem um Sol por testemunha de tudo o que acontece e até passa despercebido.
No início dos anos 1950, a Paraíba estava a reclamar uma nova obra que tratasse da sua História desde os primeiros tempos da colonização pelos ibéricos, considerando que já fazia pelo menos três décadas que fora publicado o último livro com mais ou menos esse propósito. Notas sobre a Parahyba, de Irineu Joffily, a primeira obra desse gênero, saíra ainda no século 19 (1892). Maximiano Lopes Machado faleceu em 1895, deixando inédita a sua Historia da Provincia da Parahyba, que somente foi publicada em 1912. O primeiro volume de Datas e Notas sobre a Parahyba de
Texto originalmente publicado na revista comemotativa Rádio Tabajara 50 Anos, publicada pelo Governo do Estado da Paraíba, em 1987.
O historiador José Octávio me pede algumas reminiscências sobre a Rádio Tabajara da Paraíba, que, este ano, está completando seu cinquentenário, e eu não vejo como esconder esse passado que mora com muita nitidez na minha memória.
No início da semana fui ser gentil com um casal que vinha na direção oposta em nossa caminhada matinal da beira mar e ao me afastar topei. Fui ao chão em câmera lenta. Digo isso porque tive tempo suficiente de imaginar que a minha cabeça iria de encontro ao meio fio e consegui desviar a pancada colocando a mão no asfalto. Deu certo... em termos, porque estou com a mão imobilizada por algum tempo para avaliar a necessidade de uma cirurgia.
Ritmo lento, cadência suave, melodia envolvente e apaixonada, letras poéticas e românticas combinadas com arranjos orquestrais ricos e harmonias sofisticadas, o bolero é um gênero musical que se destaca pela capacidade de transmitir emoções e contar histórias de sofrência, amor e desilusão.
Não posso dizer que nunca tive veleidades poéticas. Todos temos, sobretudo quem lida com a palavra e a estuda constantemente através dos bons autores. Fixei-me, no entanto, no ensino da Literatura e não em produzir Literatura. Afirmo com todas as palavras que não sou poeta, sou apenas um versejador que, à força de ensinar que o poema é para o ouvido e não simplesmente para os olhos, acabei por fazer um livro de epigramas, fruto das minhas leituras de Catulo, Marcial e Gregório de Matos, e outro de poemas infantis para os meus netos, Arthur Ígbà e Clara Lis.
CAÍRAM AS FOLHAS
Caíram as folhas que vi
nascer quando parti
Não fui testemunha das aguadas
e da prenhez da terra que alimentaram
Apenas a meia-volta da memória
se despede, vez ou outra
E sigo na constância,
e os dias, sim, brotam
Nesta tentativa, certamente maçante para vocês, de refazer o itinerário lírico de minha turma na Campina Grande mítica dos anos 60, pelas ruas poéticas de tantas cidades que povoam o mundo, eu, de uma certa forma, submeto-me, diante de todos vocês, que me honram com sua presença e com sua paciência, a uma verdadeira sessão psicanalítica. Como Octávio Paz no seu poema, falo de gente que existe, mas também de fantasmas, os fantasmas guardados no armário ancho de minha geração. O fantasma de John Lennon assassinado em frente ao edifício Dakota, em Nova Iorque. Mas também de uma energia, cuja pilha está aqui, escondida entre a pedra do reino da serra de Teixeira e a Itacoatiara do Ingá do Bacamarte. Esta usina, com água do açude velho, produz a luminosidade própria de uma estrela espantosa como Elba, como eu um sobrevivente desta cidade mítica dos anos 60, aqueles nos quais descobrimos o amor e o espanto.
Branquinho feito algodão, aquele inhame. E quase tão macio. Estava, ali, na mais fumegante das três panelas de barro. A segunda continha arroz e, a terceira, uma cabidela cozida ao ponto do desmanche na boca. À primeira garfada, percebi o cominho, a pimenta, o alho, a cebola e o coentro na medida correta. E um fundinho avinagrado à perfeição. A dona de tais preparos nascera para isso.
MEDITANDO
Encontro-me pensando no passado...
Minh’alma, flor rebelde, sem desgosto...
Sorrisos abundavam no meu rosto...
Um tempo frutuoso e desvairado.
Hoje as dores encobertas que eu sinto...
São fissuras que sangram ferimentos...
São páginas rasgadas, são lamentos...
Veredas tortuosas, labirinto.
Velho, não
entardecido talvez
Antigo sim.
Me tornei antigo
porque a vida,
tantas vezes, se demorou.
e eu a esperei
como um rio aguarda a cheia.(Mia Couto)
Essa velhice do nascedouro tem ambiguidades pontiagudas a juventude sem compromisso e a maturidade latente do peito da mãe que se doa. Carências e ofertas. Tudo junto. Mistura entre lírico e samba, entre tango e frevo. E o torturante fado a me acompanhar. Entre o calar e o gritar.(Albiege Fernandes)
Sou Ana Adelaide Peixoto Tavares – Viúva, mãe de Lucas e Daniel, avó de Luísa. Professora Doutora da UFPB, aposentada – Departamento de Letras Estrangeiras Modernas. Escrevo crônicas no jornal A União e no blog Ambiente de Leitura Carlos Romero. Gosto de viajar e de não fazer nada. De cinema, ler e de dançar. De comer massa com pão de alho. De moda e de música. Não necessariamente nessa ordem... E de contemplar a vida... e todas as horas! “A prontidão é tudo”! Com poesia. Sempre! Já tive os cabelos vermelhos. Hoje não mais.
Ana Adelaide Peixoto Tavares Acervo da autora
Assim está o meu pequeno currículo.
Sou aquariana e amante da liberdade. E do sossego. Sou muito grata por ter nascido em meados dos anos cinquenta e ter assistido a transformação inimaginável do mundo. Final do século XX e começo do XXI. Quantas mudanças! e a tecnologia e junto com ela, a gente com um celular na mão e uma loucura na cabeça. Mas tenho que admitir que, sem essa maquininha, a minha vida e transformações íntimas não teriam sido possíveis – ficar viúva, ninho vazio, e morar sozinha. Essa simultaneidade das coisas e instantaneidade me dão companhia e a ilusão de pertencimento, mas, a essa altura, quem quer saber da verdade? Contento-me com a ilusão.
Com tantas décadas no lombo, vamos mudando também. Vou ficando mais parecida com meu pai, ensimesmada. Mas sem o seu xadrez, infelizmente. Sempre fui caseira, mas tinha um pé no mundo. Hoje bem menos. Ainda gosto da rua, mas o calor me deixa dormente.
Gosto de olhar para trás e ver tudo o que aconteceu comigo. Não tudo, claro. Se pudesse mudar, sim, mudaria alguns destinos. Quem nunca?
Festa? Lembro da personagem de Virginia Woolf, Mrs Dalloway, que vivia a dar festas. Uma forma de uma mulher naqueles tempos londrinos observar o mundo, se expressar e viver o mundo público. Eu já gostei muito de festas. Não por esses motivos. Mas também para me expressar dançando, beijando os meninos bonitos, e explodindo as alegrias da juventude. Lembro que nos meus 50 ofereci uma festa para a família e amigos chegados, no Parahyba Café, e amanhecemos o dia, eu e Juca dançando Caetano: “E agora, que faço eu da vida sem você?...você não me ensinou a te esquecer”.
Nos 60, eu estava enlutada e tivemos só um bolinho para a família no aconchego da minha casa. Hoje, com mais uma volta ao sol, completando essa data redonda, 70 anos, quadrada e triangular, agradeço – Gracias a la vida! Que me há dado tanto. E celebro com meus filhos, companheiras, neta, irmãs, sobrinhos e cunhados, a minha vida. Recentemente, tive sustos na saúde, sustos que chacoalham a nossa existência e temos que tirar forças outras para enfrentar a vida: que não vai te tratar bem...
Quem quiser que fale bem de uma idade dita terceira. Queria mesmo era voltar aos 40! Mas não temos opção e seguir em frente é a Pasárgada possível. Comerei pastel de nata, sim! Darei uns mergulhos no mar, e já tenho os meus desejos íntimos. Conquistas? Nunca são muitas. Mas nunca fui ambiciosa. Ter um chão iluminado. Comidinha quentinha na mesa e contas pagas. Saúde e alegria de viver. Quem já teve depressão e síndrome do pânico, sabe do que falo. Um vestido novo, um sorvete de pinha, um entardecer, uma boa noite de sono, são luxos. Mas, e o Carnaval? A loucura dele é um êxtase que me faz falta.
A finitude? Assusta sim. Os cabelos brancos nos lembram sempre dessa data num futuro próximo, mas gosto de pensar num futuro perdido nas nuvens, que não tenho controle, que ele só aconteça.
Amar a arte é desvendar um universo de emoções, expressões e significados. É mergulhar nas profundezas da criatividade humana e se deixar envolver pela beleza que ela nos proporciona. A arte transcende a mera função decorativa, é a manifestação da alma do artista, que busca transmitir suas ideias, sentimentos e visões de mundo através de formas, cores, texturas e sons.