Cirineu chegou para nos curar de uma grande dor: o desaparecimento da gatinha Siri que, vendo o portão de fora aberto para que um carro entrasse na garagem, saiu em disparada e nunca mais voltou. Por vários dias a procuramos pelas ruas do bairro e adjacências, colamos cartazes em pet shops e contratamos anúncios em um carro de som. Meu filho
Cirineu, o gato que recentemente virou estrelinha ▪️ Acervo da autora
mais velho saía à procura dela quase toda madrugada, na esperança de encontrá-la. Recebemos alguns telefonemas com pistas e indicações de seu paradeiro, mas, quando íamos ao local, não era ela ou não estava mais por lá.
“Nada me atrai mais do que a palavra/ e toda palavra me trai;/nada me ocupa mais que a palavra/ e toda palavra me culpa.” É o que diz o meu amigo, o poeta José Antônio Assunção, em um dos seus poemas. Essa luta do poeta na sua busca da palavra, constatando a sua intangibilidade é
Vou contar esta história porque já vi o mesmo fato acontecer muitas vezes e sempre sobra a mesma lição, mote do livro que estou terminando de escrever: “O limite do suficiente”.
Sigmund Freud, o pai da Psicanálise, era grande estudioso, dentre outras matérias, da Antiguidade Clássica Greco-Latina. Nesse sentido, não é raro nos depararmos, ao longo da obra do eminente psicanalista, com a presença desse acervo na elaboração da sua metapsicologia, tendo a clínica como campo de observação e de respaldo. Assim sendo, os mitos também fazem parte desse conglomerado analítico, funcionando como subsídio para se entender o ser humano, mais especificamente a sua subjetividade, uma vez que o sentido
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intrínseco do mito reflete manifestações da psique humana, tratando-se de instrumento de elaboração da subjetividade do homem de antanho, portanto, de valor atemporal.
Sou o décimo segundo filho de uma prole de treze (sete homens e seis mulheres). Nasci dentro de uma casa cheia de ancestralidade, vozes, passos, risos e barulhos — filho de João Gonçalves de Abrantes (comerciante) e Cremeilda Dantas de Abrantes (professora e poetisa) — e trago comigo a sorte rara de quem teve uma infância feliz. Vim ao mundo em Sousa-PB, no ano de 1965, mas foi em 1970 que a vida me levou, de mãos dadas com meus pais e irmãos, para João Pessoa, capital do Estado da Paraíba, cidade que me ensinaria tudo o que sei.
Meu amigo João, com quem discuto temas graves da geopolítica, passou a gostar de uísque puro, ao estilo caubói. Meus 80 anos requerem a diluição dessas doses em gelo, muito gelo. O que ele propôs, quando do nosso recente encontro, foi um brinde com gosto de despedida, o toque dos copos como se fosse o último.
Há quem imagine que somente o humano acometido da “loucura” da criação literária é capaz de promover a usinagem das palavras com a matéria da universalidade, por ser ele, com essa insanidade, vetor de estranhamentos que desencadeiam mudanças profundas nos semelhantes e, por consequência, no mundo, porque está em si
Dando prosseguimento à série sobre os ingênuos e os nascidos escravizados na antiga Paróquia de Nossa Senhora das Neves no ano de 1833, hoje traremos informações canônicas sobre o batizado de adultos, com base nas Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia,
O altruísmo, como um dos pilares da convivência humana, se revela em gestos simples, mas profundos. A frase de Mahatma Gandhi ecoa em nossos corações: "A verdadeira medida de um homem não se vê nos momentos de conforto e conveniência, mas sim em seus desafios e controvérsias." Essa perspectiva nos convida a refletir sobre a importância do caráter e da integridade.
Perguntarão: o que essas três criaturas teriam em comum a ponto deste escrevinhador aqui tomar linhas à frente com tal assunto? Seria a espertise na arte da guerra? Não é. Os dois primeiros eram estrategistas; cada um no seu pedaço, mas eram especialistas. Já o terceiro, um cabo austríaco que se achava alemão...
Immanuel Kant (1724–1804), filósofo alemão, compreende o funcionamento do conhecimento humano a partir de três grandes faculdades: a de conhecer, a prática e a de julgar. Essas estruturam o modo como o ser humano se relaciona com o mundo,
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consigo mesmo e com os valores estéticos. A primeira é a faculdade de conhecer, responsável pelo conhecimento científico. Nela, a razão opera dentro dos limites da experiência possível, produzindo conhecimentos objetivos e universais. Kant afirma que “todo o nosso conhecimento começa com a experiência, mas nem por isso deriva todo ele da experiência” (KANT, Crítica da Razão Pura, B1). Isso significa que, embora o conhecimento tenha início na experiência, ele depende de estruturas a priori do sujeito para se organizar. A segunda é a faculdade prática, ligada à moral.
Quanto mais refletirmos, mais seremos guiados por aquilo que realmente desejamos e queremos do que por aquilo que os outros impõem sobre nós por acharem que se trata de um objeto ou ideia de que necessitamos. O desejo é da esfera inconsciente, e o querer pertence ao nível consciente. A lógica produtivista e neoliberal tem automatizado as nossas escolhas.
Quando a Igreja na Paraíba soluçava fatigada e envelhecida nas práticas elementares de evangelização, vivendo no silêncio causticante de regras atrofiadas sob o sol da esperança, encoberto por nuvens escuras, surgiram entre nós dois padres com o “cheiro das ovelhas e pés no chão”. Vieram como mensageiros da esperança e de sonhos, como foram os profetas da Antiga Aliança.
Escrevo para refletir sobre minha iminente mudança de endereço. É um olhar sobre o espaço que nos cerca, os hábitos e as percepções.
Moro neste apartamento há 21 anos. Sempre me deslocando pelo mesmo bairro ou por suas vizinhanças, percorro ruas nas quais me reconheço e sou reconhecida, íntima das fachadas dos prédios. Por toda parte,
Essa história aconteceu no tempo do ronca, quando o recato das moçoilas era-lhes o maior trunfo para os casórios. Quanto mais pudibundas, mais candidatas à celebração nupcial. Daí que se esmeravam em ostentar um ilibado comportamento em sociedade; quando iam às tertúlias, era na companhia das genitoras ou de alguém a quem incumbia vigiá-las.
Ela o fez numa terça-feira comum, entre o primeiro e o segundo gole de café. Decidiu que, naquele dia, tentaria encontrar a empatia. Não a palavra desgastada em discursos, não o conceito bonito das redes sociais. Mas a coisa viva, o fio de ouro que une as almas. Ela imaginou que fosse uma questão de olhar nos olhos das pessoas.