Ainda com a barra da calça cheia de pega-pinto, gostaria de esclarecer alguns fatos a respeito desta árvore tricentenária, o famoso Tamarindo de Augusto dos Anjos, sob cuja fronde o poeta teria chorado, “com a canseira / De
inexorabilíssimos trabalhos!” (todas as referências são da *Obra completa*, preparada por Alexei Bueno, Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1994. “Debaixo do Tamarindo”, p. 210).
A opinião é um ganho civilizatório. É uma forma educada de contestar os outros. Quem opina discorda (afasta-se pelo coração), mas a vida é assim mesmo. Nem compre a concórdia é possível num universo em que são tão diversos os fatos e as pessoas. Ao afirmar que toda unanimidade é burra, Nelson Rodrigues traduziu o essencial: uma verdade se afirma, sobretudo, pelo que ela contesta. Como o outro lado, por sua vez, também não abdica de contestar, espera-se chegar a uma provisória pacificação pelo equilíbrio das diferenças.
Assim como para escapar de um vício é preciso “evitar a primeira vez” (no dizer de Rousseau), para adquirir um bom hábito é preciso começar a praticá-lo. No começo está sempre uma promessa de continuidade. É mais fácil deixar de fazer o que não se começou.
Hoje as pessoas aceitam que o que compram pode fazê-las felizes. Nossa sensibilidade de
consumidores é moldada pelo que gratifica, sobretudo, em termos materiais. Isso explica por que o dinheiro é o deus supremo. Sem ele nada se tem e, por extensão, nada se é. Atualmente tudo se mercadeja, inclusive a religião. É verdade que “a Graça” nunca veio de graça, mas antes tinha pela menos um aspecto desprendido e piedoso, que disfarçava suas motivações venais.
O mercado sempre pega uma carona mesmo que o veículo esteja na contramão dos seus propósitos. Por exemplo: no filme “Barbie”, o cor-de-rosa remete à falência das ilusões associadas à imagem da boneca. É estranho que na vida real se reproduza, por adereços e vestimentas, um cenário que a película procura ironizar. Ou o pessoal não entendeu nada, ou entendeu e (mesmo sem querer) tomou o partido da ironia e da carnavalização.
A Inteligência Artificial promete facilitar a vida de engenheiros, administradores, profissionais de saúde, enfim, dos que podem
contar com a sua amplidão de processamento informacional para fazer cálculos e manipular instrumentos. Nessas áreas, é praticamente certo o seu nível de acerto. Em outras, ela pode se tornar um perigo. Isso porque, quando erra, a IA tem a inflexibilidade de um burro teimoso. Como foi moldada para apresentar determinadas respostas, e só elas, não pode se corrigir. Ou seja, não tem consciência, que é justamente a capacidade de se reconhecer em erro, “voltar atrás” e criar novos padrões de comportamento.
O esporte, que é por definição uma alternativa à guerra, acaba espelhando com ânimo bélico as contradições da vida. A recente Copa do Mundo mostrou isso com a sua profusão de agressões e ardis promovidos por quem deveria, em princípio, respeitar as regras.
Espera-se que, se na guerra vale tudo, no esporte se demonstre respeito pelos oponentes e o reconhecimento dos melhores sem ressentimentos nem deslealdade. Infelizmente, muitos trabalharam para que não fosse assim. E não deixou de ser irônico, num evento em que os embates visam sublimar nossos impulsos homicidas, que a premiação aos vencedores tenha saído feita por um presidente que no momento patrocina uma guerra real.
Há homens que aprenderam a esconder a dor, não porque fossem naturalmente fortes, mas porque lhes ensinaram que sentir era uma forma de fracasso. Cresceram ouvindo que lágrimas enferrujam a coragem, que a fragilidade corrói o respeito e que a delicadeza enfraquece o caráter. Assim, fecharam as janelas da alma e ergueram muralhas onde antes havia espaço para a luz. Antes de qualquer definição sobre o que é ser homem, existe uma pergunta mais antiga.
Há livros que nos atravessam como um vento leve, e há aqueles que nos ficam, como uma chuva fina que insiste em cair dentro da gente. No horizonte tem chuva fiando, de Bia Crispim de Almeida, pertence a esse segundo tipo raro: não apenas se lê, mas se sente, se respira, se carrega.
Tal como Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade era – é – considerado um burocrata perfeito. Sério, responsável, metódico e organizado, foi tudo isso, enquanto funcionário público, sem forçar a natureza, pois até na vida privada era assim, com a vida pessoal e também a do seu tempo devidamente fichada, catalogada e arquivada; de tal modo que seus estudiosos pouca dificuldade têm para acessar informações e outros registros importantes sobre suas biografia e obra. Nesse perfeccionismo, creio até que ultrapassou Machado como ícone da burocracia brasileira.
Consta-me que, ao dirigir-me ao nosso ilustre monarca, o "Vossa Majestade" exigiria tratamento na terceira pessoa do singular; no entanto, em se tratando dessa figura de tão nobres predicados, fá-lo-ei nesta missiva usando a segunda pessoa do plural, por ser, a meu ver, mais elegante e respeitosa. Então, à carta.
Todos los seres
tendrán derecho
a la tierra y a la vida,
y así será el pan de mañana
el pan de cada boca,
sagrado,
consagrado,
porque será el produto
de la más larga y dura
lucha humana.
Pablo Neruda. Oda al pan
“Nada se compara à beleza das paisagens montanhosas do Iémen. Recortadas em picos fantásticos de todos os tipos, as falésias rochosas conferem um ar selvagem a uma vista que, de outra forma, possui o mais pacífico encanto.
Vales verdejantes, em alguns trechos arborizados e entremeados por riachos de águas cristalinas; campos inclinados, repletos de plantações e flores silvestres; encostas em terraços ou cobertas pela selva - tudo é tão exuberante, tão verdejante, que transforma completamente a nossa conceção da natureza da Arábia.
Todos os dias entro no ambulatório trazendo comigo protocolos, diretrizes e decisões terapêuticas complexas, e saio levando algo que não encontro nos livros. Meus pacientes oncológicos do SUS têm me ensinado uma lição silenciosa e profunda: a grandeza dos pequenos gestos.
Poema Sobre as Obras da Terra representa um dos momentos mais ambiciosos da produção poética de W. J. Solha. Longe de restringir-se à contemplação da natureza, o poema transforma a própria Terra em protagonista de uma vasta epopeia da inteligência, da matéria e da criação. A Terra deixa de ser mero cenário da existência humana para converter-se em sujeito ativo da história, fazendo do homem uma de suas manifestações mais complexas. Essa perspectiva constitui o eixo filosófico da obra e aproxima a poesia de uma visão cosmológica da realidade.
Um cordel não "em português", se assim posso dizer, mas português "da gema", vivido e vivenciado no coração da Amazônia. Assim é o cordel que hoje vos apresento, para não perder o tom português. Peço que "ultrapassem" minha digressão até chegar à parte em que falo sobre o referido cordel. Adianto que tudo, na minha mente, tem a lógica da "introdução", desta vez sobre essa linda forma de literatura, o belíssimo cordel, e que, sim!, correu tanto o mundo que agora tem um português escrevendo um sobre
O conto “Conversa de bois”, de Guimarães Rosa (Sagarana, 72ª. Ed, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2017), no que diz respeito à construção de sua fabulação, fundamenta-se em três narrativas, uma genérica e duas específicas. Genericamente, o conto é uma fábula, no sentido primeiro dessa palavra, como narrativa que dá voz aos animais. Para que fosse alcançada a realização dessa fábula, o autor, de modo sutil se apropria de uma passagem da Odisseia, de modo que possamos conhecer de onde
Numa madrugada do ano de 1982, partimos de Teresina para Porto Velho, quase quatro mil quilômetros de distância. Ivan, Josafá, Mingo e eu, a bordo de uma caminhonete comprada na véspera. Tão ansiosos que nem emplacamos a possante; achávamos que a nota fiscal da concessionária bastaria. Não bastou.
Tempo, tempo, tempo...
Senhor digno e divino.
Ensina-me a bater à porta sem medo, sem culpa.
Ensina-me a descer sem arrastar ninguém junto. A morrer inteiro, mesmo quando o corpo já não mais cabe em si.
Existe uma pergunta que atravessa toda a existência humana e costuma aparecer apenas quando já estamos diante do abismo: se fomos livres para escolher quase tudo durante a vida, por que deixamos de ser livres justamente diante da morte?
Eu dançaria, de muito bom grado, no enlevo da melodia e na pulsação dos versos de Kledir Ramil, com a mulher que tenho comigo lá se vai quase meio século. Refiro-me ao Kledir da famosa dupla com Kleiton, autores e intérpretes de sucessos que fizeram o Brasil cantar de Norte a Sul, sobretudo, na primeira metade dos anos de 1980. Sim, falo dos irmãos Ramil, os dois gaúchos que estouraram, nacionalmente, combinando o regionalismo sulista com as baladas da época. Os mais adentrados hão de lembrar de “Deu pra ti”, “Vira Virou” e “Paixão”.