Todos os idosos se parecem; alguns aproveitam a alegria do presente, outros, atingidos pela “caduquice”, andam de braços com a saudade, vivem seu passado como se fosse o presente, enquanto o presente lhes parece alheio.
Após a reforma no calendário romano, realizada por Júlio César, com a ajuda do astrônomo grego Sosígenes, em 46 a. C., o mês de fevereiro, a cada 4 anos, passou a ter 29 dias, de modo a completar com perfeição a órbita da terra ao redor do sol (na época pensava-se o contrário, óbvio). No entanto, mesmo depois do calendário juliano e enquanto permaneceu a contagem tradicional dos dias pelos romanos, nunca existiu o dia 29 de fevereiro.
Na tarde de um dia com chuva que nos faz recolher ao aconchego da rede preguiçosa, passeando pelos círculos sociais, percebo um texto me chamou a atenção. Não conheço a pessoa que o escreveu, mas muito gostaria de parabenizá-la pelas colocações acerca da arte, porque trouxeram salutares reflexões, como um manto a agasalhar as inquietações de minha alma.
Há mais ou menos 100 anos, a radiodifusão irrompeu no mundo criando novos paradigmas para a Comunicação. O dramaturgo alemão Bertolt Brecht saudou o novo meio como uma concretização da ágora ateniense, ou seja, um espaço para a participação democrática em todas as esferas da vida, por intermédio da livre manifestação da opinião.
National Gallery! Para que se tenha ideia aproximada do espaço ocupado pelas 2.300 obras da Galeria Nacional, que se impõe ante a Praça Trafalgar, parei no centro dele e, ao me voltar para a série de salões a oeste, portas afora, depois para outro tanto delas a leste, eu disse:
O trato continuado com a ensaística de Ângela Bezerra de Castronão dá margem a assomos de surpresa com a sua poesia. Ela não tem feito outra coisa, desde que se dedica ao cultivo literário, senão exercícios de percepção poética. Se o resultado ganha a aparência de ensaio ou discurso, não seja por isso, pela forma comum, que ele se dissocie do conteúdo poético. Boa parte das pessoas que se confessaram surpresas com aquele mínimo de espaço transbordante de poesia, trazido a público no blog de Germano Romero, se disso não sabiam, bem o pressentiam.
O relacionamento humano saudável não pode prescindir da reciprocidade. O conceito de que a convivência entre as pessoas deve ser pautada num espírito de solidariedade é de enorme valor para a harmonia social. Estamos sempre na dependência uns dos outros, e essa compreensão faz com que devamos estar permanentemente dispostos a retribuir os favores que recebemos.
Mesmo os urubus mais antigos – Segundo Seu Axessio Pordeus, alguns chegando a viver dez, doze anos --, não tinham memória de seca daquela. Mas tinham, isso sim, começado a cair, de tão gordos. Simplesmente despencavam do alto e esborrachavam o papo no chão. Nos lajedos. Na lama esturricada da vazante.
Cinco vezes! Foram 5 chances para se evitar tal absurdo. Mas a burocracia, a desatenção com os idosos, a indiferença com os mais velhos, o descaso com um ancião, concorreram para o disparate.
Nem tanto mais imponente, mas desafiante do esquecimento que a persegue nas últimas décadas. Para olhos atentos, ela fornece pinturas, em meio à chuva, no rasgar do sol matinal, na penumbra vespertina. Muitas vezes se transforma em ouro ao deixar-se tocar pelos raios das primeiras e últimas horas do dia.
No tempo em que se usava relógio de algibeira se deu o fato que vou narrar. Era elegante puxar a corrente e trazer à vista o redondo e trabalhado relógio de metal precioso. Um esnobismo que foi desaparecendo com o surgimento dos relógios de pulso. Atualmente, o celular faz tudo, inclusive marcar as horas. Mas, vamos à história propriamente dita. Certo senhor de posses, dono de uma das lojas de bom porte, detentor de vultosa fortuna escondida nos bancos, morador de uma grande e confortável residência, saía, a pé, cada manhã para a sapataria de sua propriedade. Imaculadamente trajando branco, terno de linho puro, chapéu de linha, lenço no bolso do paletó, sapatos engraxados. Cumprimentava as pessoas de forma mecânica, por educação, mas sem aquele sabor de quem gosta de se entrosar com os conhecidos da rua onde morava ou passantes. Um pernóstico. Gabava-se de sua riqueza e principalmente do relógio de algibeira importado - fazia questão de acentuar – em ouro maciço, feito por encomenda e personalizado, inclusive com seu nome gravado. O único do planeta. Não vou revelar a identidade do dono, posto ser falta de ética desmesurada, e seria correr o risco de alguém ainda sobrevivente de sua prole elástica ainda estar no meio de nós.
Numa dessas manhãs, logo que dobrou a esquina rumo à loja, não notou ser acompanhado por um homem do povo, a certa distância. Jamais desconfiaria ser seguido por um larápio ou gente que lhe pudesse fazer o mal. Jamais. Na cidade todos o conheciam, inclusive o tal humilde personagem. Este logo se aproximou do ricaço e o cumprimentou com naturalidade, dizendo-se freguês, entrou na sapataria, experimentou um calçado, pagou e saiu. Iria estrear o sapato no casamento da filha. Mas o freguês tinha maléfica intenção que logo mais se saberá.
Próximo, havia uma feira livre extensa. O comprador do sapato, cujo nome omito por motivo óbvio, se aproximou de alguns perus e adquiriu o mais nutrido. Foi-se com a ave debaixo do braço em direção à bela mansão do vendedor de calçados. Chegou-se ao portão de ferro, bateu palmas. Veio atendê-lo a esposa do rico comerciante:
“Que deseja?” Ele respondeu, prontamente, na maior naturalidade:
“Seu digníssimo esposo mandou entregar este peru e pediu que lhe mandasse o relógio de algibeira que ele esqueceu”. A senhora mandou que um dos empregados recolhesse o peru e trouxe a peça, entregando-a ao emissário, em confiança. Agradeceu ao portador com alegria.
Quando o marido chegou para o almoço, a esposa contou o fato. Ele ficou totalmente surpreso. De nada tinha conhecimento. Apenas que esquecera, realmente, o famoso relógio, pois saíra apressado. Ficou perdido em suposições. Aquele perseguidor era um ladrão fino e inteligente. Notara que ele, dono da sapataria, se esquecera de levar na algibeira a raridade. Astuto o rapaz. O valor do peru estava aquém do portentoso marcador de horas fornido a ouro maciço...
José Leite Guerra é bacharel em direito, poeta e cronista
O rapaz se chamava Josué e tinha cavalgado quatro léguas para assistir a primeira missa do domingo na Matriz de Nossa Senhora das Mercês. Era uma manhã deserta e silenciosa porque não havia ninguém pelo caminho e também porque nada parecia importar, a não ser os pensamentos que lhe martelavam o coração, assim como os cascos do cavalo nas folhas secas do terreno arenoso. Nem a beleza da névoa azulada que pouco a pouco se dissipava através dos galhos e folhagens das árvores que margeavam a estrada parecia importar. E nem mesmo o último mata-burros sombreado por frondosas algarobas e touceiras de aveloses que chamavam a atenção pela exuberância e onde havia uma casa secular com janelinha perto da cumeeira e telhado com chaminé, parecia importar.
Quando penso ter esgotado todo o acervo de orações, vejo que a sintonia com o Alto é infinta como a Inteligência Suprema. Mesmo respeitando preces historicamente tradicionais, como a de Cáritas, São Francisco, Pai Nosso, Credo, Ave-Maria e outras, o conceito de oração não se reflete exatamente em repeti-las. Ainda que, como atestam estudiosos do magnetismo e das energias vitais, o “Pai Nosso” tenha o poder de um mantra.