Paraíba, 24 de abril de 2022

Paraíba, 24 de abril de 2022

Tento apurar a atenção, sobretudo as ouças, no que está dizendo o comentarista acerca das razões ou interesses de fundo e de impérios de...

Tento apurar a atenção, sobretudo as ouças, no que está dizendo o comentarista acerca das razões ou interesses de fundo e de impérios dessa invasão russa para deter o alinhamento da vizinha Ucrânia aos países da OTAN.

Estou nessa, a luz do entardecer já me aconselhando a acender a da Energisa, quando sou subitamente arremessado de mim e, por pouco, da cadeira em que me achava, agredido pela sonora violência de uma batida aguda de ferro ou de bigorna a um metro de minha janela. Janela alta de edifício urbano sem nenhuma mata mais próxima que justifique a visita.

Rudimar Cipriani
Respiro, recobro-me, e não acredito no que vejo: a um metro do meu susto a remota e longínqua araponga do antigo vizinho do Tambiá, no mesmo tom esverdeado da cabeça até o gogó, o resto das vestes de um branco azulado, aquele mesmo olhinho cintilante e duro, e de bico aberto como se tivesse pousado por cansaço, nem tanto dos quilômetros voados como dos cinquenta e mais anos de distância no tempo.

Numa puxada atrás de casa, seu Terto mantinha engaiolado esse bigorneiro então popularíssimo, presente em terraços e quintais de dezenas de amadores. “Cantor extraordinário das matas litorâneas” na bela descrição de Heretiano Zenaide, em seu precioso livro “Aves da Paraíba” . “Aí (nas matas) tem ele sua tenda e tange o ferro sobre o ferro, na hora solene do entardecer”.

É o famoso ferreiro que andou pelo meu telhado de infância rural. Presença incomum na região brejeira, e por isso marcante, inesquecível aos ouvidos de quem só tinha a passarada nativa como orquestra, dispersa durante o dia, mas invisivelmente reunida, completa e bem regida para receber ou se despedir, em cantata, do sol. Quando ouvi a “Fuga de Carlos Romero ou de Bach vagando na API da minha chegada aqui, só me lembrei da minha aérea passarada.

Mike & Chris
No tempo de curumim rural isto não chegava a ser lírico ou poético por ser a rotina. Como é rotina, sem muito encanto, a voz estridulada do bem-te-vi nas manhãs do meu arredor de hoje. Sobretudo para quem se deteve espantado, anos atrás, só para assistir, ao sol da manhã, a tirânica ferocidade desse pássaro para fazer de uma feia e mansa lagartixa a sua primeira refeição. Incrível como dois bichos de aparente insignificância protagonizam crueza tão selvagem!

Mexo-me, o ferreiro ou araponga dá-se por satisfeito, retoma seu voo, e saio atrás do velho Heretiano. Só a distância me consente hoje a liberdade desse tratamento. Menino, o que me chagava por ouvir dizer, trazida pelos ventos vizinhos de Alagoa Grande, era a fama do usineiro. Crescido, já colega de ofício do seu filho Hélio, avistava-o de barbas veneráveis em seu terraço ali pela Maximiano. Mas me liguei a ele, a sua memória, à sua verdadeira grandeza, quando li o “Meu herbário cariri” e, logo depois, “Aves da Paraíba”, obras raras do relicário natural e cultural da Paraíba e do Nordeste. Pena que me tenham levado ou não tenham devolvido o “Meu Herbário Cariri”. Se voltassem os tempos, eu o faria editar pela “Biblioteca Paraibana” de saudosa memória.

OFÍCIO Como troféu, carrego em meu pescoço os ossos do meu ofício. O peso, de tantos que são, me impele a não olhar para trás,...

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OFÍCIO
Como troféu, carrego em meu pescoço os ossos do meu ofício. O peso, de tantos que são, me impele a não olhar para trás, a diminuir os passos e a pensar que chegou a hora de enterrá-los, em cova rasa, para que descansem em paz.

Na adolescência, ainda morando no bairro do Róger, troquei cartas em inglês com uma garota polonesa. Consegui seu endereço numa seção espe...

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Na adolescência, ainda morando no bairro do Róger, troquei cartas em inglês com uma garota polonesa. Consegui seu endereço numa seção especializada de uma revista de fotonovelas que encontrei numa pilha de revistas velhas de uma de minhas irmãs. Para exercitar o inglês, os garotos do meu tempo procuravam nas revistas nome e endereço de estrangeiros interessados em se corresponder com brasileiros.

Quando o escritor português José Saramago lançou o “Memorial do Convento”, um dos seus livros mais elogiados, muitos leitores se depararam...

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Quando o escritor português José Saramago lançou o “Memorial do Convento”, um dos seus livros mais elogiados, muitos leitores se depararam pela primeira vez com o nome do padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão. Nascido na vila de Santos, em São Paulo, o padre Bartolomeu de Gusmão, em 1705, teve o seu primeiro invento registrado pela história: um sistema de bombeamento de água para o seminário dos jesuítas em Cachoeira, na Bahia.

Creio que existam poucas obras de arte tão belas, perfeitas e completas como a Nona Sinfonia de Beethoven (Opus 125, ré menor, 1824). Um m...

Creio que existam poucas obras de arte tão belas, perfeitas e completas como a Nona Sinfonia de Beethoven (Opus 125, ré menor, 1824). Um monumento de magia sonora, em que o grande mestre da música ocidental expõe toda sua concepção de vida de forma solene, e, ao mesmo tempo, com suavidade celestial.

Tenho dois amigos que escrevem romances. Um que usa palavras e outro que pinta quadros para contar suas histórias. Ambos com suas obras ...

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Tenho dois amigos que escrevem romances. Um que usa palavras e outro que pinta quadros para contar suas histórias. Ambos com suas obras transmitem paz e contribuem para que a literatura e a pintura transformem a sociedade.

“O que foi visto naquela noite no Cassino Tabarís por bêbados, putas e anjos do céu transbordou até a Praça do Poeta Castro Alves e desa...

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“O que foi visto naquela noite no Cassino Tabarís por bêbados, putas e anjos do céu transbordou até a Praça do Poeta Castro Alves e desaguou no mar dos saveiros”. Esta frase bem poderia ter sido escrita por Jorge Amado, retirada de uma das aventuras de Quincas Berro D'Água, o rei das prostitutas e vagabundos da Bahia. Mas é da autoria de Cida Lobo, do livro Na noite que me queiras (Maringá, Viseu, 2021, p. 145). O romance enfoca o apogeu

Eu lia uma dessas pesadas Histórias da Arte, quando tive um alívio enorme: depois de mais uma vez atravessar a Renascença Italiana – che...

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Eu lia uma dessas pesadas Histórias da Arte, quando tive um alívio enorme: depois de mais uma vez atravessar a Renascença Italiana – cheia de calvários, mártires, batalhas e juízos finais – entrei numa leve e clara abordagem da arte japonesa. Com isso entendi porque ela foi agente importante da grande revolução ocorrida com o Impressionismo. Imagine o frescor que os europeus da época sentiram na descoberta, por exemplo, das Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji, de Hokusai.

DESPEDIDA É na transição que me despeço pois outro em torno passa a ter sentido Não que seja felicidade a sucessão de p...

jorge elias neto poesia capixaba
DESPEDIDA
É na transição que me despeço pois outro em torno passa a ter sentido Não que seja felicidade a sucessão de portas, imagens, e a nova transparência do Mundo Não saber o nome que se diz quando se está surpreso passa a ser a vida (o recorte de cada adeus é essa bruma triste afastada dos olhos)

Tua linguagem soa oxítona aos meus ouvidos. A última sílaba ressoa em escassez. É desta ótica que vejo tua fala. A língua parece um objeto...

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Tua linguagem soa oxítona aos meus ouvidos. A última sílaba ressoa em escassez. É desta ótica que vejo tua fala. A língua parece um objeto cortante. Resvala na pele e o resto é só ferida. Será demorada a cura? Tuas palavras pagaram todas as despesas da minha viagem. Guardei tua fala na carteira e resolvi partir. Depois disso, ficaram na estrada, e a cada quilômetro rodado, deixei o grito, o gesto e o nefasto. Deixei você no asfalto.

O velho pé de ficus ainda estava lá, agora, mais frondoso. Quando menino, escalava aquele tronco para o esconderijo de onde via sem ser vi...

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O velho pé de ficus ainda estava lá, agora, mais frondoso. Quando menino, escalava aquele tronco para o esconderijo de onde via sem ser visto até surpreender com uma arma de brinquedo o companheiro de esconde-esconde. “Renda-se aí” e, pronto, mais um “inimigo” saía do jogo.

Os edifícios de hoje são próximos. Assim como no filme Uma Janela Indiscreta , somos seduzidos a espiar a janela do vizinho da frente. Mas...

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Os edifícios de hoje são próximos. Assim como no filme Uma Janela Indiscreta, somos seduzidos a espiar a janela do vizinho da frente. Mas poderia ser Truffaut mesmo, com a sua bela Fanny Ardant. Logo que cheguei aqui, passava a vista pelas janelas com as luzes acesas. Via um quarto de criança, um guarda-roupa, um varal, um gato cinza espremido entre a vidraça e a rede de proteção. Por sinal, aquele gato me intrigava. Ora eu achava que eu o olhava de longe, ora tinha a impressão de que era ele que me notava, com olhos de gato pardo.

Sempre enfrento… Sempre sigo em frente… Nunca desisto dos meus sonhos, minhas utopias, meu fazer nas artes, no jornalismo, na vida… Que j...

Sempre enfrento… Sempre sigo em frente… Nunca desisto dos meus sonhos, minhas utopias, meu fazer nas artes, no jornalismo, na vida…

Que juntos, homens e mulheres, possamos construir uma sociedade mais humana, mais igual, com direitos e dignidade para todos os seres desta nossa Terra!

Mesmo os meios de transporte, tipo automóveis, motos e bicicletas, só se movem se o ser humano provocar o movimento. Não é comum alguém co...

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Mesmo os meios de transporte, tipo automóveis, motos e bicicletas, só se movem se o ser humano provocar o movimento. Não é comum alguém constatar que alguma coisa se move sozinha. Vá lá, o controle remoto da TV é uma exceção. Não é incomum deixá-lo num lado da cama e encontrá-lo na mesa de cabeceira. Porém é só isso. Móveis rangerem de madrugada e bolinhas de gude baterem no chão do apartamento do seu vizinho de cima são coisas do além, e nessa seara eu não entro; é a área de mãe Leca. E foi exatamente ela quem deu a prova definitiva de que documentos se movem sozinhos, sim.

“A partir da quinta-feira suprimia-se o doce, a rapadura, e não se comia nada fora das refeições. Falava-se de pessoas que jejuavam a pão ...

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“A partir da quinta-feira suprimia-se o doce, a rapadura, e não se comia nada fora das refeições. Falava-se de pessoas que jejuavam a pão e água. Todo prazer era proibido. Comer, beber, só para manter a subsistência. Nem banho se tomava, era regalo.