22.3.22
"E flutuou no ar como se fosse um pássaro E se acabou no chão feito um pacote flácido" (Chico Buarque) Eram amigos desde os ...
"E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido"
(Chico Buarque)
Eram amigos desde os tempos da bola de gude e de empinar pipa nos frios e ventos de julho. Regulavam de idade. Cresceram carne e unha, amigos inseparáveis. Escolheram ambos, profissão de pedreiro e eram respeitados no ofício. Sabiam assentar azulejos e imprimiam qualidade nos serviços, fossem dos mais triviais, como o assentamento de tijolos, aos mais sofisticados a exemplo dos acabamentos que exigissem caprichos e mãos hábeis. Para quem não sabe, assentar azulejo não é para pedreiro meia colher, exige competência no ofício. Uns danados, Tonho e Juca.
22.3.22
22.3.22
Tenha-se em mente estarmos agora numa época em que o típico visual Hippie não fosse ainda familiar para a maioria das pessoas, herdeira...

Tenha-se em mente estarmos agora numa época em que o típico visual Hippie não fosse ainda familiar para a maioria das pessoas, herdeiras conscientes do linho e do tropical ingleses, daquela indústria que usara e abusara (literalmente) do nosso Algodão Mocó. Em nada a “aparência Hippie”, de Ivo, coincidia com o look “cabeludinho jovem guarda” – uma espécie de janota caipira, começado a infestar a cena diária das cidades brasileiras, pelo recente surgimento da televisão –, e esta era uma das razões pela qual o personagem em questão atraía olhares tão logo saísse às ruas. O visual Ivo “Bitch”, tal como carinhosamente o chamavam os de sua geração, deixava alguns populares intrigados, chegando a neles despertar certa comichão em observá-lo mais de perto.
22.3.22
21.3.22
EU SOU ASSIM Uso sapatos confortáveis, Tenho tinta no cabelo, Mente inquieta, Olhos mansos, adoráveis. Gosto da quietude...
EU SOU ASSIM
Uso sapatos confortáveis,
Tenho tinta no cabelo,
Mente inquieta,
Olhos mansos, adoráveis.
Gosto da quietude,
Da beleza da manhã de sol,
Mas também gosto de chuva,
De vento e de trovão.
Tenho momentos de cérebro,
Outros de só coração.
21.3.22
21.3.22
... mas algo, em mim, sempre me diz "resista" Minha primeira peça de teatro, O VERMELHO E O BRANCO, de 68, teve três ou quat...
... mas algo, em mim, sempre me diz "resista"
Minha primeira peça de teatro, O VERMELHO E O BRANCO, de 68, teve três ou quatro apresentações e foi proibida pela Censura Federal da ditadura “por ferir a dignidade da pátria e ser capaz de sublevar os ânimos da juventude”.
Morreu ali.
21.3.22
21.3.22
A máscara é o mais característico objeto associado a esses dois anos de pandemia. Os infectologis...
A máscara é o mais característico objeto associado a esses dois anos de pandemia. Os infectologistas consideravam-na imprescindível para impedir a contaminação e faziam contínuos apelos para que as pessoas a usassem em locais públicos. Sem esse higiênico tapume que nos cobria parte do rosto, era impossível sair de casa – e havia os que, mesmo no recesso doméstico, não a dispensavam.
21.3.22
21.3.22
O célebre álbum de John Lennon foi inicialmente lançado nos EUA em 9 de setembro de 1971 e no Reino Unido em 8 de outubro do mesmo ano. Aq...
O célebre álbum de John Lennon foi inicialmente lançado nos EUA em 9 de setembro de 1971 e no Reino Unido em 8 de outubro do mesmo ano. Aqui no Brasil, imagino que tenha chegado em fins de 1971 ou em começos de 1972. Eu estudava no Liceu à época e fui apresentado ao disco por um colega de classe, o carioca Bráulio, filho de um capitão do exército que então prestava serviço em quartel de nossa cidade.
21.3.22
20.3.22
Paraíba, 20 de março de 2022
Paraíba, 20 de março de 2022
20.3.22
20.3.22
Quiseram os compositores de música que sentíssemos o mesmo que os inspirou? Seus arroubos à poesia, conflitos e indagações? Suas dúvidas e...
Quiseram os compositores de música que sentíssemos o mesmo que os inspirou? Seus arroubos à poesia, conflitos e indagações? Suas dúvidas e esperanças, amores e rancores? Só pode. Está tudo nas entrelinhas, ocultos ou revelados nas partituras, na sugestiva combinação estética dos sentimentos, no poder que brota dos íntimos e profundos recônditos da emoção.
20.3.22
20.3.22
O POLÍTICO Quando ele nasceu, foi batizado com o nome de Carlos (Karl) Frederico (Friedrich), homenagem a Karl Marx e Friedrich Engels...
O POLÍTICO
Quando ele nasceu, foi batizado com o nome de Carlos (Karl) Frederico (Friedrich), homenagem a Karl Marx e Friedrich Engels. Seu pai era um político que, em plena República Velha, tinha ideias socialistas e era ligado ao nascente sindicalismo brasileiro. Seus dois tios paternos pertenciam ao Partido Comunista Brasileiro e ambos chegaram a ocupar o cargo de secretário-geral do PCB, o posto mais elevado na estrutura partidária. Aos 12 anos de idade, o hiperativo e sagaz Carlos Frederico já lia obras como “O ABC do Comunismo”, de Bukharin, que lhe eram repassadas por um dos seus tios.
20.3.22
19.3.22
E se a escritora aceitar o meu convite? Tenho me perguntado cada vez mais, pensando como vai ser, o que devo fazer, pois gosto muito de d...
E se a escritora aceitar o meu convite? Tenho me perguntado cada vez mais, pensando como vai ser, o que devo fazer, pois gosto muito de deixar tudo planejado.
Ah, sim: antes de continuar, deixem-me apresentar a escritora. Trata-se de Marlena de Blasi, jornalista que escrevia para vários periódicos norte-americanos sobre gastronomia internacional e crítica de restaurantes pelo mundo.
19.3.22
19.3.22
Dimas Batista de Toledo era (para não deixar em desuso um velho jargão do economês) um classe-média-baixa originário do serviço público. A...
Dimas Batista de Toledo era (para não deixar em desuso um velho jargão do economês) um classe-média-baixa originário do serviço público. Aposentado, complementava o orçamento com alguns trabalhos contábeis.
Estabelecemos as nossas paralelas a partir de A União de Juarez Batista com um irmão do dr. Osias, Odemar Nacre Gomes, na gerência. Eu me firmando na redação e Dimas do outro lado, na parte contábil.
19.3.22
19.3.22
Volta e meia me pedem para falar sobre a campanha de 1986, aquela em que Burity deu um banho de votos em Marcondes Gadelha na disputa pel...
Volta e meia me pedem para falar sobre a campanha de 1986, aquela em que Burity deu um banho de votos em Marcondes Gadelha na disputa pelo governo do Estado. Na época, aqui na Capital, só existiam três emissoras de ondas médias (as rádios Tabajara, Arapuan e Correio) e duas de freqüência modulada (Arapuan e Correio). As FMs adotavam a linha "vitrolão": somente música e notícias curtas, quase telegráficas. O quente ainda eram as AMs. Segundo avaliações trimestrais do Ibope,
19.3.22
19.3.22
Nas minhas aulas de literatura, costumo repetir, à maneira de um mantra, duas frases, que me parecem essenciais para quem quer lidar com...
Nas minhas aulas de literatura, costumo repetir, à maneira de um mantra, duas frases, que me parecem essenciais para quem quer lidar com o fenômeno literário na condição de leitor crítico ou de professor de literatura:
“Por melhor que seja a análise feita de uma obra literária, ela não substitui a sua leitura.”
“Não cedam à razão da autoridade, mas à autoridade da razão."
19.3.22
18.3.22
Só sei que vou te amar I À quantas anda a secura de tua boca? Fulgura ainda em teus lábios a liga do beijo? Entendas que...
Só sei que vou te amar
I
À quantas anda
a secura de tua boca?
Fulgura ainda
em teus lábios
a liga do beijo?
Entendas que é breve
o que se diz eterno.
E que a intenção
revela-se no
mesmo segundo
que a mão esbofeteia.
18.3.22
18.3.22
Flagrei-me ao lado do escritor, artista, crítico, intelectual e pensador Waldemar José Solha , e de sua adorável esposa Ione, quando os do...
Flagrei-me ao lado do escritor, artista, crítico, intelectual e pensador
Waldemar José Solha, e de sua adorável esposa Ione, quando os dois comemoravam, em Paris, suas bodas de ouro, em 2015.
Poder ter participado de uma tarde dentre os dias dessa festa é algo que guardarei comigo para sempre. Nos dias de hoje, invadido por redes sociais, em que vemos tantos casamentos de fachada, não é para qualquer um passar cinquenta anos de sua vida ao lado de outra pessoa.
18.3.22
18.3.22
Pouquíssimas coisas me falam tanto à alma quanto a velha máquina de costura de Dona Vininha, minha mãe. Tão logo me dei por gente, na idad...
Pouquíssimas coisas me falam tanto à alma quanto a velha máquina de costura de Dona Vininha, minha mãe. Tão logo me dei por gente, na idade das primeiras descobertas, eu me pus a admirar o modo engenhoso como aquela caixa de madeira acomodava o bloco de ferro pintado em tom escuro. A cor negra realçava o emblema dourado com o símbolo da fábrica, na base mais grossa, aquela com tronco e pescoço para a roda e a correia.
18.3.22
17.3.22
Procissão Voz que ecoa dos gestos Um povo em procissão Passos lentos Cadência solene Coreografia do corpo da humanidad...

Procissão
Voz que ecoa
dos gestos
Um povo em procissão
Passos lentos
Cadência solene
Coreografia do corpo da humanidade
Destino irrevogável
Somos um só
Organismo vivo
Somos um milagre
- Quem nos explica ?
O Supremo se derrama sobre nós
Presença da estrela
Faz brilhar o meu chapéu
Rasgadas dores
Pise devagar nas flores
Cuidado com o degrau
Deixe para trás seus pertences
O tanque pesado cospe fogo
Mata a Pátria
O tempo de espera
Dos meninos
Que não voltam nunca mais
A guerra que está lá
Bate no meu coração
No seu coração
No nosso coração
Mais coragem do que palavras vãs
Para viver a Paz
No silêncio claro
Onde o amor vacilou
Na ganância
Na lama dos pés sem descanso
Na fome
Nos excessos
O ar que respiro é um
Se eu morrer morres também
Aprendo a ler
As pedrinhas do chão
A mansidão do olhar das vacas
A generosidade das abelhas
Daí sou rainha
Canto o mundo
O quero inteiro
O igual e o desigual
Todos na asa leve do Anjo
A cada dia gratidão
Saí com vida ! É vida !
Alegria generosa
Do jogo insano
De mãos dadas com o perto
E o longe
Com a terra que não nega
Fartura
Homens sonegam comida e água
Roubam encanto
Do quintal da liberdade
Distraída brincadeira de existir
A luz alheia
Faz de mim amor
O leito do rio doce
A morada limpa de sangue
A mulher menstrua
O homem sangra
O coração da espécie
O sol da bandeira do mundo
Seca feridas
No varal do tempo
Clamor da fé
Em procissão
Um acorde
Um acordo
O estado simples da poesia
Sem saber se é noite ou dia
Anestesia
Cria
O caminho onde não há
São luzes
Da raiz do umbigo
Coroa do tempo
Que volta do redor do mundo
Contas do rosário
Na reza das mães
Rola uma lágrima
Pela terra perdida
O sonho senhor da vida
Carrega o andor
De cetim lilás da esperança
O anjo vivo
Uma criança.
A rosa mulher
Tua cor rosa pálido
A linda príncipe negro
Rosa poesia
De lábios macios
Pele de seda
Afrodite
Emergindo das espumas
Em você , Rosa
Sonho acordada
Teu rosto clássico
A corola guardada
Anoitece encarando a lua
Olhando para o espaço
Tão nua
Amanheces vestida de orvalho
Em ti meus sentidos
Se expandem
Sou perfume
Na paisagem de ninguém
Sinto a terra girar
Mas nada importa
Penso redondo
Que força herdei
De tua feminilidade !!
Dou- me conta
Do tempo
Do mundo
E do meu lugar
Num e noutro
Somos
Eu e você
Empoleiradas num globo giratório
Tontas de amor
Vidas no espaço
Neste viver engolfado
Sobreviveremos
A séculos de chuvas
Mares que se avolumam
Guerras injustificáveis
E a dor de um mundo
Sem graça
I
Entre as margens
A vida flui sossegada
O corpo é água
Na espera ...
do instante
que a imaginação conduz
Apenas estar
Hoje lhe compete a ficção
a força da água
Velejando no asfalto do caminho
II
Acima a noite
convés em alto - mar
onde deito sonhos
no tom azul
de águas limpas
A lua que olha através
das nuvens
se sobrepõe
a qualquer sentimento
Tudo em toda luz
espelho
Onde escrevo teu nome
com batom grená
III
As uvas
em Kama Sutra
línguas
Corpo que desliza no profundo
Onde se cose o gemer
sem dor
17.3.22
17.3.22
Os brasileiros acordaram há 32 anos quase lisos. Só podiam sacar apenas 50 mil cruzeiros novos de todo o dinheiro que mantinham em de...
Os brasileiros acordaram há 32 anos quase lisos. Só podiam sacar apenas 50 mil cruzeiros novos de todo o dinheiro que mantinham em depósitos. Pouco importava se a grana estivesse em aplicação financeira, conta corrente ou até mesmo na até então inviolável caderneta de poupança.
Era o plano Collor, que impôs um feriado bancário de 3 dias. Enquanto a ministra Zélia Cardoso de Melo e o presidente do BC, Eris, tentavam explicar que aquela grana confiscada seria devolvida em 18 meses com juros de 6% ao ano mais correção (o que não aconteceu), a população começou um ciclo de vida que mal comparando seria uma meia pandemia covid, eis que ninguém tinha a menor ideia de como sobreviver sem grana. A justificativa do governo era o controle da inflação e o investimento em projetos econômicos.
17.3.22
17.3.22
Ah, esses meus delírios crônicos! Verdadeiros bálsamos que me salvam das agonias da existência. Vivo um tipo de luta permanente do bem co...
Ah, esses meus delírios crônicos! Verdadeiros bálsamos que me salvam das agonias da existência. Vivo um tipo de luta permanente do bem contra o lau. Sou um tanto clown. Eis a principal fonte de inspiração das minhas galhofas. Nunca rio ou faço chacota de ninguém, pois tenho muito a rir de mim mesmo. Gosto de gente que ri. Só não gosto de gente perfeita. Gente que não dá defeito. Às vezes até gosto. Mas gosto desgostando e sobretudo, não confio.
17.3.22
16.3.22
Da inconsistência de todas as coisas a vida é uma pétala de rosa que brotou no chão de um discurso vazio no olho do furacã...
Da inconsistência de todas as coisas
a vida
é uma pétala de rosa
que brotou no chão
de um discurso vazio no olho
do furacão
a vida
esconde um véu cheio
de fragilidades estampada
na camiseta à venda na
esquina do desequilíbrio
fluida e frágil,
escapa das intenções
e do destino se querem
dar-lhe nome de batismo
e sobrenome de menino
16.3.22