O que não falta aqui na capital das acácias é farmácia e academia de letras. Uma para cada esquina e para todos os gostos. Mas, como o mercado farmacológico não é do interesse deste cronista, fiquemos com essa proliferação acadêmica.
A primeira vez que o vi, estava ele majestosamente enfurnado em um “pufe” na sala dos professores de um colégio onde eu fora ensinar em Campinas, interior de São Paulo. Todo cheio de pose, voz grave e, mesmo esparramado como estava, pude perceber que não era lá um sujeito grandão, o que confirmei quando soou o sinal para nos dirigirmos à nossa faina diária, de disposição no peito e giz na mão. Isso foi lá no ano 2000. Já em 2001 fui convidado a ser um dos coordenadores daquela escola, e aí nossa relação se tornou muito próxima.
Ele anda meio adoentado. Passou por procedimentos cirúrgicos delicados e hoje se vê às voltas com algumas patologias oportunistas que atacam nosso organismo quando este se encontra debilitado. Acontece que esse caba é duro na queda, é terreno duro, não é mole como um tijuco. Ali, enxadada alguma é capaz de encontrar minhoca. O chão é seco, impermeável, e só britadeira para furar.
Na semana que passou, ocupei estas mal traçadas linhas para um desabafo; ou seja, resolvi falar de duas qualidades de criaturas que encontro pelos becos da vida e cuja presença muito me incomoda: o bêbado raiz e o abstêmio convicto. Dois chatos de galocha. Hoje vou me ocupar com um outro modelo de gente, se assim posso chamar,
À custa de alguns tropeços, a vida ensinou-me a estabelecer limites no que diz respeito à ingestão de bebidas alcoólicas. Cometi alguns excessos, mas raros. Normalmente, não ultrapasso as fronteiras daquela euforia discreta e não me permito chegar ao território das inconveniências.
Quando me chegaram pela primeira vez as notícias de que seria avô, confesso que senti um certo incômodo. E por quê? Muito simples: era a constatação de que iria entrar em uma nova fase da vida, aquela em que eu iria ver a velhice muito mais próxima do que pudesse enxergar meus verdes anos lá para trás no tempo.
Meus amigos, minhas amigas, quando tomo de empréstimo algumas linhas deste nosso poderoso rotativo, tento trazer causos (nunca mentiras) ou algo que possa dar um beliscão no emocional de quem está lendo. Mas hoje não será nem uma coisa nem outra. Meu coração está mais para lançar minhas queixas do que para outras elucubrações do espírito. Sim, quero deixar aqui meus veementes agravos pelas injustiças que cometeram com Júlio César quando este era vivo e o esquecimento de que foi vítima depois de sua passagem neste planeta.
O futebol exerce a magia de aproximar criaturas muito diferentes quando dentro dos limites daquelas quatro linhas pintadas de cal (hoje, dizem, é látex). Foi assim que Noronha e Ferreira acabaram se encontrando pelos desígnios da vida. Noronha, sujeito de quase dois metros, espadaúdo e forte como búfalo marajoara. Já Ferreira, mocetão de compleição que não merecia
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destaque nem para mais nem para menos, com seu um metro e setenta e quatro; enfim, um vivente discreto nas aparências. Ambos nas 17 primaveras e jogavam no esquadrão amador do glorioso União Futebol Clube, que tinha seu campo onde hoje está plantada a Faculdade de Odontologia da UNESP, lá em São José dos Campos.
Nada para nos incomodar tanto como promessas que ficamos devendo àquelas pessoas que partiram para uma viagem que estava fora do combinado. O abraço que fomos adiando, pedidos de desculpas que protelamos. Coisas assim. O problema é que essas elucubrações ficam martelando nosso juízo e não há como darmos fim a elas.
Quando alguém faz aquela viagem que estava fora do combinado, sem volta, a jornada definitiva, e é chegada a hora da partida, não é incomum ouvirmos as mais diversas conjeturas de quem está tentando aliviar a dor dos que ficaram. Coisas assim: Foi para um bom lugar ou Está melhor do que nós. Tem ainda, se o viajante padecia de alguma enfermidade grave: O pobre descansou. Quando a compra do bilhete de partida se deu de forma inesperada, não falta o: Ontem mesmo conversou comigo e parecia estar vendendo saúde. É nesses momentos que também se fazem presentes os filósofos de plantão: Aí está o destino de todos nós. Precisava lembrar?
Seu Tonico e Dona Mirtes formavam um casal que dava gosto de ver. Era voz corrente que ali estava um exemplo de como se deve construir uma relação de benquerença. Isso mesmo, estamos nos referindo àquela relação que é o alicerce da mais sagrada das instituições, a família. Dava gosto de ver aqueles dois. Ainda trocavam mimos de namorados e nunca esqueceram o 12 de junho quando jantavam fora e depois... Bem “o depois”, já entenderam. Nunca falharam.
Ah, quem ainda goza do vigor dos seus melhores anos nem seria capaz de imaginar que penúria é enfrentar o atrevimento de um calendário que tenho pendurado em uma parede de meu gabinete. Este vai substituindo as folhinhas dos meses com uma velocidade que me angustia. Daí meu padecimento em pensar que os anos que tenho pela frente já não são tantos e que bom seria se o tempo fosse mais vagaroso, que este tivesse a preguiça que ando tendo de uns tempos para cá.
Aqui um causo verídico e, por isso mesmo, acho que deixa de ser causo e não sei exatamente como posso chamá-lo. Seja lá o que for, cabe a mim apenas relatar o ocorrido e não ficar com lero-lero discutindo, como dizem, o sexo dos anjos. Vamos então aos personagens e depois ao que se passou.
Ao que me consta, há alguns critérios para que uma elevação seja classificada como uma montanha. Desconheço-os, se é que existam realmente. Deixo esse pormenor com os geógrafos, geólogos e outras criaturas que passam a vida estudando nosso planeta e dando nomes muito peculiares a tudo que existe por aqui. E vamos aprendendo com eles a diferenciar mar de oceano, lago de lagoa, cachoeira de catarata, estreito de canal, serra de cordilheira, cabo de promontório, riacho de córrego e aí vem o que mais me interessa: montanha de morro e de colina. Afinal, qual a diferença?
Perguntarão: o que essas três criaturas teriam em comum a ponto deste escrevinhador aqui tomar linhas à frente com tal assunto? Seria a espertise na arte da guerra? Não é. Os dois primeiros eram estrategistas; cada um no seu pedaço, mas eram especialistas. Já o terceiro, um cabo austríaco que se achava alemão...
Sim! Eu mesmo. Esse tal de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, o TDAH, me aporrinhou a vida por um bom tempo, e sem que os que acompanhavam aquilo que seria o meu desenvolvimento percebessem.
Aquela figura fantasmagórica que aparece em meus pesadelos para me assombrar, tendo à mão uma foice afiada, querendo pôr termo à minha passagem por este planeta, anda me assustando nessas minhas últimas noites, por sinal, tão mal dormidas. Pois não é que essa coisa anda à solta por aqui e levando gente querida? Dias atrás levou o Chico Pereira, que vinha, como um guerreiro incansável, lutando pela vida, e me parece que essa foi a única batalha que Chico não venceu. De todas as outras saiu vitorioso, e o espólio dessas contendas está por aí como legado indelével às nossas artes, à nossa cultura; enfim, Chico não veio a passeio na vida e deixou por aqui o melhor de si.
Dona Nalva, minha mãe, precocemente partiu para outras dimensões, mas teve tempo ainda de guiar meus passos e os de outros três bacuris até quase ao fim das adolescências (as nossas e não, é claro, a dela). No que me diz respeito, não faltaram os bons conselhos, principalmente aqueles que me alertavam sobre quão importante é selecionarmos, de maneira criteriosa, os amigos; enfim, os camaradas que estarão conosco pelas jornadas da vida.
Eras, na vida, a pomba predileta
Que, sobre um mar de angústias, conduzia
O ramo da esperança. — Eras a estrela
Que, entre as névoas do inverno, cintilava,
Apontando o caminho ao pegureiro.
Eras a messe de um dourado estio.
Eras o idílio de um amor sublime. (Fagundes Varela)
Oh, Misericordioso, que o Livro Sagrado diz estar acima de todos e de todas as coisas, que tudo pode e consegue, eu aqui, humildemente, contrito e apequenado em minha dor, venho propor uma troca que a Ti não demandará custos ou quaisquer outros inconvenientes.
Tu, onipresente, onisciente e detentor de outros sortilégios, já deves ter lido meus pensamentos. Sabes o que de Ti quero e o que de mim desfaço nesta singular negociação.